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Ministra colombiana reivindica 'novo poder' com países dispostos a deixar o petróleo
Os quase 60 países reunidos na cidade colombiana de Santa Marta para impulsionar uma saída dos combustíveis fósseis constituem um "novo poder" diante da resistência de grandes países produtores, disse à AFP a ministra colombiana do Meio Ambiente, Irene Vélez.
A conferência, aberta na sexta-feira (24), nasceu como uma tentativa de vários países de criar uma coalizão para deixar petróleo, gás e carvão à margem das negociações da ONU sobre mudança climática, onde esses esforços estão paralisados, apesar de um acordo alcançado na COP28 de Dubai.
O encontro, que coincide com uma disparada dos preços do petróleo em razão da guerra no Oriente Médio, será encerrado na quarta-feira (29), após uma reunião de alto nível de ministros e diplomatas.
Em Santa Marta estão presentes produtores de combustíveis fósseis como Canadá, Austrália e Brasil, mas estão ausentes os maiores países poluentes, como Estados Unidos, China e Rússia.
Vélez, também ex-ministra de Minas e Energia da Colômbia, anfitriã do evento, definiu essa ausência como uma vantagem.
A seguir, trechos da entrevista editada para melhor compreensão.
PERGUNTA: Como a ausência em Santa Marta dos maiores produtores de hidrocarbonetos pode afetar a credibilidade da conferência?
RESPOSTA: "Podemos ver isso pelo lado inverso. Quando os maiores emissores estiveram presentes nas negociações das COP, foram justamente eles que impulsionaram o veto para que não se fale da necessidade de fazer uma transição para além dos combustíveis fósseis.
Vale a pena nos concentrarmos nos países que estamos aqui, que representamos quase 50% da população global, entre países consumidores, produtores, países vulneráveis do sul e do norte globais e, nesse sentido, hoje somos um novo poder".
P: Se houver um documento final, o fato de eles não estarem presentes não vai afetar o peso desse texto?
R: "De forma alguma, porque aqui não estamos esperando uma declaração conjunta nem novos acordos vinculantes entre países. Estamos esperando soluções, e estas não dependem necessariamente dos maiores emissores. Esperamos que, em algum momento, eles embarquem nesse trem".
P: A conferência, paralela às COP, se deve a uma frustração com os limites dos processos da ONU?
R: "O multilateralismo está em crise, mas isso não nos leva à conclusão de que devamos abrir mão dele. Pelo contrário, é preciso um multilateralismo mais profundamente enraizado nos povos, e não apenas nos governos, em vieses ou no lobby econômico. São necessárias novas alianças".
P: As COP foram até onde podiam?
R: "As COP demonstraram capacidade de diálogo, mas também limitações. Uma em relação a como o lobby da indústria petrolífera enviesou os temas que podem ou não ser incluídos nas COP, e outra sobre a metodologia de consenso (da ONU), que acabou derivando em um veto de fato diante de países como a Colômbia, que querem discutir com mais ambição decisões relacionadas particularmente aos combustíveis fósseis. E, por outro lado, há uma questão metodológica que enviesou a entrada de vozes da sociedade civil".
P: Que resultados essa conferência trará?
R: "Em primeiro lugar, o lançamento de um primeiro painel científico dedicado à transição energética, que poderá assessorar cidades, regiões, países e coalizões em seu exercício de roteiro para a transição. Também esperamos a síntese das contribuições (de soluções) tanto dos governos quanto da sociedade civil, do setor privado, dos sindicatos e dos povos que estão aqui. Esse relatório será entregue como insumo para o roteiro (da presidência brasileira da COP30, nota da redação) para sair das energias fósseis".
P: A Colômbia, ao mesmo tempo em que defende a transição energética, é grande produtora de carvão e petróleo. Como o governo de Gustavo Petro administra esse paradoxo?
R: "O que fizemos foi dizer que não haverá novos contratos de hidrocarbonetos nem expansão da mineração de carvão. Com isso, foram incentivadas economias produtivas baseadas na produção de alimentos, no turismo e na industrialização; 2025 demonstrou, pela primeira vez, que havia mais exportações em termos de remessas e divisas de café do que de carvão. E também foi o primeiro ano em que a Colômbia teve mais energia proveniente de renováveis não convencionais, particularmente solar, do que de carvão".
J.Bergmann--BTB