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Nova corrida do ouro ameaça terras protegidas da Amazônia
O cacique indígena Bepdjo Mekragnotire se prepara mais uma vez para liderar um grupo de guerreiros para expulsar garimpeiros ilegais do território de seu povo, na floresta amazônica brasileira.
Com um cocar de penas vermelhas, Bepdjo contou à AFP que aumentaram as tensões com invasores na Terra Indígena Baú, no estado do Pará, quatro anos depois de seu povo kayapó expulsar quase 200 garimpeiros.
"Os garimpeiros são teimosos. Entram de qualquer jeito. Porque hoje o preço do ouro está muito alto", disse Bepdjo, de 45 anos, à AFP em Pykany, uma aldeia em um território vizinho ao Baú.
"É perigoso, mas a gente tem que expulsar, senão vai aumentando, vai entrando".
O ouro, um ativo de refúgio em tempos turbulentos, vive uma nova era de valores históricos em meio à instabilidade global.
Essa febre empurra os garimpeiros ilegais para áreas até agora relativamente preservadas, como o Baú.
Em fevereiro, armas foram sacadas por alguns instantes quando Bepdjo e vários guerreiros kayapó cruzaram com garimpeiros em uma canoa. Segundo o cacique, eles expulsaram 24 pessoas.
Depois, a Rede Xingu+, composta por 53 organizações indígenas, ribeirinhas e da sociedade civil atuantes na bacia do rio Xingu, advertiu, em uma carta às autoridades, sobre o "risco iminente de um conflito armado em grande escala" e pediu ajuda.
Bepdjo está cansado de esperar. "A gente não sabe quantos garimpeiros estão lá dentro, a gente só chega lá e vê", disse, enquanto planeja a nova missão.
Jair Schmitt, presidente interino do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), disse à AFP que o órgão se concentra em territórios "que enfrentam situações mais graves: o Ibama não pode estar fisicamente presente em todas as áreas".
- "No interior da selva" -
Especialistas consideram que as terras indígenas protegidas são uma das melhores defesas contra o desmatamento e a mudança climática.
Do alto, em um voo do Greenpeace, a AFP pôde observar a pressão do garimpo sobre áreas protegidas.
Vastos cenários de árvores derrubadas, com poços e canais escavados para minas, são interrompidos em uma fronteira invisível com territórios indígenas, onde o verde da floresta se estende até o horizonte.
Segundo a ONG Amazon Mining Watch, o garimpo afetou 223.000 hectares no Brasil entre 2018 e 2025, quase 80% deles de forma ilegal.
Desde que o presidente Lula voltou ao poder em 2023, o governo reprime o garimpo clandestino, após seu antecessor Jair Bolsonaro ser acusado de estimular um clima de impunidade na Amazônia.
Mas os barões do garimpo, cujas operações passaram de empreendimentos artesanais a projetos milionários com maquinário pesado e frotas de aviões, adaptaram-se rapidamente.
Nilton Tubino, coordenador de operações de proteção dos territórios indígenas designado pelo governo Lula, disse à AFP que uma "nova corrida" do ouro fomenta o garimpo ilegal na Amazônia.
"Hoje, para chegar no acampamento, você caminha cinco, seis, sete, até dez quilômetros dentro da selva, porque cada vez ele vai mais para dentro da selva", afirmou.
Schmitt, do Ibama, disse que a maior dificuldade é "enfrentar o crime organizado", em referência às facções Primeiro Comando da Capital e Comando Vermelho, declaradas na quinta-feira organizações terroristas pelos Estados Unidos e cada vez mais presentes nessa atividade.
- "Minas fantasma" -
O Instituto Escolhas, que analisa a cadeia de fornecimento do ouro, afirmou que o Brasil produziu 71 toneladas de ouro em 2025, exportadas principalmente para Canadá, Suíça e Reino Unido.
O Brasil trabalha em uma nova legislação para assegurar a rastreabilidade do ouro.
Larissa Rodrigues, do Escolhas, disse que, devido à ofensiva governamental, o ouro que antes "saiu pela porta da frente do Brasil" agora é retirado por contrabando por países vizinhos como Guiana ou Venezuela.
Existem outras brechas legais para lavar ouro, como as "minas fantasma", descritas em uma investigação do Greenpeace publicada nesta sexta-feira.
Esses locais têm permissões de lavra garimpeira e declaram vendas, mas, quando se sobrevoa a área, não há sinais de atividade.
Danicley de Aguiar, coordenador sobre povos indígenas do Greenpeace Brasil, disse que o ouro extraído de áreas protegidas provavelmente é lavado por meio desses esquemas.
Fernando Lucas, presidente da Federação de Cooperativas de Garimpeiros de Ouro do Pará, disse estar cansado de que os garimpeiros sejam "taxados como bandidos".
Ele afirmou à AFP que muitos querem operar legalmente, mas ficam presos à burocracia, e pediu um modelo "organizacional sustentável".
- "Tentação" -
O cacique Bepdjo também lida com divisões dentro de seu próprio povo. Alguns apoiam o garimpo clandestino, incluindo seu antecessor.
A disputa levou alguns moradores da aldeia a se mudarem para o outro lado do rio.
"Muitas vezes os próprios garimpeiros vêm falar com a gente, oferecendo dinheiro: você vai ter carro, você vai ter mulheres, você vai ter uma empresa. Então é uma tentação que o jovem que não pensa vai querer", disse Takagmoro Kaiapo, de 25 anos, filho do ex-cacique.
M.Ouellet--BTB