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Mama Antula, pioneira dos direitos humanos e primeira santa argentina
A beata Mama Antula, que está a um passo de ser canonizada pela Igreja Católica, é considerada a pioneira na defesa dos direitos humanos na Argentina, durante o vice-reinado colonial espanhol do Río de La Plata, segundo suas biógrafas.
"Teve uma vida de compromisso com os excluídos, que eram indígenas, escravizados, negros e camponeses", disse à AFP Cintia Suárez, coautora de sua biografia junto com a italiana Nunzia Locatelli.
A cerimônia de canonização será conduzida por seu compatriota, o papa Francisco, no próximo domingo (11), na Basílica de São Pedro, com a presença do presidente da Argentina, o ultradireitista Javier Milei.
De uma rua de Buenos Aires, Suárez aponta para a monumental basílica neoclássica Nuestra Señora de La Piedad contando que este foi o local escolhido pela "mulher pioneira na defesa dos direitos humanos dos desfavorecidos" para ser sepultada.
Em uma das naves laterais do templo encontra-se o mausoléu, no qual há uma estátua sua vestida com uma capa jesuíta, uma cruz no ombro e um livro de orações na mão.
Comprometida com "pessoas que eram consideradas coisas no período colonial", a beata viveu entre 1730 e 1799, segundo a biógrafa, que afirma que ela foi um ícone para a sua época e "inspira mulheres até hoje".
Segundo o pároco da basílica, Raúl Laurencena, o movimento de pessoas em seu mausoléu aumentou nos últimos "tempos difíceis". "As pessoas rezam por pão, trabalho e paz. Rezam pelo nosso país que tanto precisa", diz ele.
De acordo com a jornalista e antropóloga social, a figura de Mama Antula ganhou um impulso com o papa Francisco, que se encarregou de divulgá-la com devoção.
- Mais de 4.000 km a pé -
Nascida María Antonia de Paz y Figueroa em uma família rica em Villa Silípica, a 40 km de Santiago del Estero, capital da província de mesmo nome (noroeste), Antula significa 'Antonia' em Quechua, a língua dos habitantes do norte da Argentina.
Leiga ligada à Ordem Jesuíta desde a adolescência, abandona a casa dos pais aos 15 anos, "atraída pelo mundo intelectual e pelos avanços que os jesuítas trouxeram da Europa" e se encarregando de cuidar de crianças órfãs, afirma Suárez, que teve como base para a biografia as mais de 300 cartas manuscritas encontradas nos Arquivos do Estado de Roma.
"Após percorrer mais de 4.000 km a pé com seus exercícios espirituais pelas províncias do norte, ela chegou a Buenos Aires descalça, com as sandálias destruídas e com a capa que um jesuíta lhe dera, quase rasgada, carregando uma cruz de madeira", detalha.
A história oral e documentada concorda que ela foi confundida "com uma bruxa ou uma louca", segundo esta historiadora, o que fez com que jovens lhe atirassem pedras e a levou a se refugiar em uma pequena capela, no local onde a basílica foi construída um século depois.
Suárez conta que a cada dia, Mama Antula se tornava mais popular e influente, uma vez que conseguia reunir diferentes membros da sociedade colonial em sua casa de orações. Este local ainda está preservado no bairro Constitución, próximo a uma estação de trem.
- Mulher forte -
Em 1767, a monarquia e o papado expulsaram e baniram os jesuítas, situação que faz com que a argentina "observasse um vazio espiritual e social nos indígenas integrados nas missões jesuítas. Eles se sentiam desesperados", afirma a jornalista.
Comovida com a situação, a beata reabre sua casa de exercícios espirituais e percorre as províncias, mesmo sabendo que era uma atividade perigosa.
Posteriormente, respeitada pelo bispo e pelo vice-rei, recebe permissão para abrir oficialmente sua casa espiritual.
"Ela tinha muita coragem e era rebelde no bom sentido. Chamavam-na de mulher forte. Ela usava sua astúcia feminina em um contexto de proibição", destaca Suárez.
Os dois milagres relatados pelo Vaticano para iniciar o processo de canonização foram curas inexplicáveis.
Por sua intercessão, "a religiosa Vanina Rosa, que estava em estado terminal devido a uma infecção generalizada, recuperou-se em 1905", explica a biógrafa.
O segundo caso, em 2017, foi do argentino Claudio Perusini, que se recuperou de um derrame, mesmo tendo o prognóstico médico inicial de que nada poderia ser feito.
J.Bergmann--BTB