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Dalai lama, líder espiritual do Tibete, demonizado na China
O dalai lama é, há mais de meio século, o líder espiritual dos tibetanos, reconhecido internacionalmente por sua campanha a favor de uma autonomia maior desta região, mas demonizado na China como "um lobo em pele de cordeiro".
Tenzin Gyatso se define como um "simples monge budista", mas atravessou o mundo para promover a causa tibetana junto à realeza, líderes políticos e celebridades.
Aos 88 anos, este homem calvo, de rosto afável e sorriso travesso se tornou um símbolo mundial da paz, cuja mensagem transcende a religião, considerada por seus apoiadores um visionário na linha de Mahatma Gandhi e Martin Luther King.
Passou a maior parte de sua vida no exílio. Tinha apenas 23 anos quando fugiu da capital do Tibete, Lhasa, depois que as tropas chinesas sufocaram o levante frustrado, iniciado em 10 de março de 1959.
Demorou 13 dias para cruzar do Himalaia a fronteira da Índia. E nunca mais conseguiu voltar.
Sua vida no exílio transcorreu ao redor de Dharamsala, uma cidade do norte da Índia que se tornou o lar de milhares de tibetanos que mantêm ali suas tradições, embora alguns nunca tenham pisado na terra de seus ancestrais.
O dalai lama instalou ali seu governo no exílio e lançou sua campanha para recuperar o Tibete, embora tenha em seguida optado por uma "via intermediária", renunciando à independência em troca de maior autonomia.
- Celebridade -
Em 1989, ganhou o Nobel da Paz, prêmio que lhe rendeu enorme popularidade e o levou a se encontrar com líderes mundiais e estrelas de Hollywood.
Vestindo seu hábito cor de açafrão e sandálias, o líder budista não se encaixava no estereótipo da celebridade. Mas seu espírito, às vezes travesso, e seu riso contagiante se mostraram irresistíveis.
No entanto, o governo da China foi imune a seus encantos, definindo-o como um separatista e um "lobo em pele de cordeiro".
Durante séculos, o Tibete alternou períodos de independência e controle da China, que considera esta colina ao norte do Himalaia como parte de seu país.
O dalai lama pede mais autonomia para seu povo, além do direito de rezar livremente e a preservar sua cultura que, segundo muitos tibetanos, é reprimida por Pequim.
Mas as negociações formais com a China foram rompidas em 2010. Um ano depois, o dalai lama deixou a política e abriu caminho para um novo líder eleito entre a diáspora tibetana.
- Vida no exílio -
Nascido em uma família camponesa na aldeia tibetana de Taksar em 6 de julho de 1935, foi eleito dois anos depois como a décima quarta reencarnação do líder religioso supremo do budismo tibetano.
Ele recebeu, então, o nome de Jetsun Jamphel Ngawang Lobsang Yeshe Tenzin Gyatso (que significa Santo Senhor, Glória Gentil, Defensor Compassivo da Fé e Oceano de Sabedoria) e foi levado ao palácio de mil quartos de Potala, em Lhasa, onde foi treinado para se tornar o líder de seu povo.
Ainda criança, demonstrou uma curiosidade científica precoce, brincando com um relógio enviado pelo presidente americano Franklin Roosevelt ou consertando carros.
Mas sua infância aprazível terminou abruptamente aos 15 anos, quando foi entronizado apressadamente como chefe de Estado depois da invasão do Exército chinês ao Tibete, em 1950.
Nove anos depois, fugiu para a Índia enquanto as tropas chinesas esmagavam o levante popular.
Dizem que Mao Tsé-Tung, ao saber que o dalai lama tinha fugido, disse: "Neste caso, perdemos a batalha."
Na Índia, o líder budista foi recebido pelo premiê Jawaharlal Nehru, que ofereceu Dharamsala como lar para ele e milhares de refugiados tibetanos.
Durante todo esse tempo, o dalai lama foi tratado como um convidado de honra na Índia, uma postura que gerou tensões entre Nova Délhi e Pequim.
Seus antecessores foram eleitos por monges, seguindo as antigas tradições budistas, mas agora não está claro quando um sucessor será nomeado.
Ele sugeriu que o próximo líder poderá ser uma mulher, que seu espírito pode se transferir para um sucessor adulto ou que poderia ser o último de sua estirpe a reencarnar como um animal.
Mas sempre foi claro sobre um ponto: nenhum sucessor nomeado pela China terá credibilidade.
"Nenhum reconhecimento ou aceitação devem ser dados a um candidato eleito com fins políticos, inclusive aqueles da República Popular da China", afirmou.
A.Gasser--BTB