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Dois prefeitos assassinados e uma crise elétrica abalam Equador antes de referendo
Dois prefeitos foram assassinados em três dias no Equador às vésperas do referendo de domingo sobre reformas para enfrentar o crime organizado, em meio a uma crise elétrica que levou o governo a decretar o estado de exceção.
Nesta sexta-feira (19), Jorge Maldonado, prefeito de Portovelo, foi morto a tiros. Na quarta-feira, José Sánchez, chefe municipal da localidade mineradora de Camilo Ponce Enríquez, foi morto.
Os crimes ocorrem em meio a uma crise energética provocada pela forte seca que assola o país desde março, esvaziando os reservatórios a níveis alarmantes e obrigando a população a suportar apagões de até 13 horas.
O presidente Daniel Noboa ordenou, nesta sexta-feira, a implementação do estado de exceção para evitar "ataques terroristas" contra a infraestrutura de fornecimento de energia, com um decreto que não restringe os direitos, segundo o governo.
A medida engloba todo o território nacional e é implementada "pela grave comoção interna e calamidade pública" para "garantir a continuidade do serviço" de energia, diz o documento.
Dias atrás, Noboa denunciou "sabotagens" que provocaram cortes de luz, mas não revelou os responsáveis.
A medida é colocada em prática às vésperas de um referendo e uma consulta popular com os quais o presidente, de 36 anos, pretende endurecer a guerra contra o crime organizado.
Entre as principais propostas do Executivo estão permitir a extradição de equatorianos envolvidos com o crime organizado, aumentar as penas por narcotráfico e permitir que a força pública use armas apreendidas em operações policiais.
Segundo o governo, o racionamento de energia será menos severo no sábado e será normalizado no domingo.
- Violência política -
Desde 2023, pelo menos uma dúzia de políticos foram assassinados no Equador. O caso mais notório foi o do candidato presidencial Fernando Villavicencio, baleado em agosto por sicários colombianos ao sair de um comício em Quito, às vésperas das eleições antecipadas daquele mesmo ano.
A polícia afirmou que Maldonado foi assassinado "enquanto realizava atividades pessoais" em um bairro de Portovelo, localidade situada na província costeira de El Oro (sudoeste e fronteiriça com o Peru).
Em imagens divulgadas em chats de imprensa, vê-se o funcionário caído em uma calçada sobre uma poça de sangue.
Promotores, jornalistas e policiais também estão entre as vítimas fatais de organizações criminosas com vínculos com cartéis do México e da Colômbia, bem como com a máfia albanesa.
Em março, Brigitte García, prefeita da costeira San Vicente (oeste) e a mais jovem (com 27 anos) autoridade municipal eleita nas eleições de 2023, foi assassinada.
À violência política e à crise energética, soma-se um conflito diplomático. O governo enfrenta a ruptura de relações com o México, depois que esse país o apresentou uma ação na Corte Internacional de Justiça (CIJ) pela invasão de sua embaixada em Quito.
- 'Grave crise de segurança' -
O Equador, localizado entre Colômbia e Peru - os maiores produtores mundiais de cocaína -, deixou de ser uma ilha de paz há anos e se tornou um ponto estratégico para as operações de gangues ligadas ao narcotráfico, que impõem um regime de terror. No ano passado, a taxa de homicídios atingiu o recorde de 43 por cada 100 mil habitantes.
Diante do avanço do narcotráfico, que em janeiro deixou uma dezena de mortos, Noboa declarou naquele mês o país em conflito armado interno e mobilizou as Forças Armadas com a ordem de neutralizar cerca de 20 gangues, rotuladas de "terroristas" e "beligerantes".
"A onda de violência que tirou a vida de dois prefeitos equatorianos em menos de uma semana é um sinal de alarme que não podemos ignorar", afirmou a Associação de Municípios Equatorianos (AME) em comunicado.
Os crimes são "indicativos de uma grave crise de segurança que coloca em risco a vida de todos os líderes municipais", acrescentou.
- Ouro ilegal -
Investigações jornalísticas sugerem que os assassinatos de prefeitos desta semana estão relacionados com a exploração ilegal de ouro.
De acordo com o portal Código Vidrio, a quadrilha criminosa Los Lobos controla e opera cerca de vinte minas de ouro ilegais em Camilo Ponce Enríquez (na província andina de Azuay), com lucros estimados em US$ 3,6 milhões (R$ 18,8 milhões) por mês.
El Oro e Azuay têm um alto potencial de mineração e são cenários de atividades ilícitas.
A AME exigiu "do Estado e das autoridades correspondentes uma ação imediata e decisiva para garantir a segurança dos 221 prefeitos do país".
Noboa, no cargo desde novembro para um mandato de 18 meses, promove o "sim" para endurecer as leis contra o crime organizado no referendo de domingo.
Nesta sexta-feira, ele incluiu em sua lista de "alvos militares" líderes do cartel mexicano de Sinaloa e um dissidente da antiga guerrilha colombiana das Farc.
O.Lorenz--BTB