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Bucha teme que crimes de guerra russos fiquem impunes com Trump
Os parentes dos centenas de civis assassinados durante a ocupação russa da cidade ucraniana de Bucha temem que o afã de Donald Trump em negociar uma trégua bloqueie os esforços para encontrar e punir os responsáveis por esse massacre.
"Podem forçar a paz como quiserem, cruzar os braços e obrigar a rendição, mas enquanto não houver justiça, a ferida não pode cicatrizar" diz o sacerdote ortodoxo Andriï Galavin, ao lado do memorial próximo à sua igreja.
É ali onde 116 das cerca de 400 vítimas do massacre de Bucha foram enterradas às pressas há três anos, nas primeiras semanas da invasão russa da Ucrânia.
Nesta igreja, entre as cruzes e os símbolos, há fotos dos crimes de guerra supostamente cometidos pelas tropas russas, entre elas algumas tiradas por jornalistas da AFP que foram um dos primeiros a descobrir os corpos de civis alvejados em plena rua.
Uma das fotos mostra o corpo de Volodimir Brovchenko, morto a tiros durante a ocupação russa no início de março de 2025 enquanto andava de bicicleta.
Sua viúva, Svitlana, contou à AFP que suplicou ao homem com quem viveu 45 anos de sua vida que saísse dela nesse dia. Hoje clama por justiça e quer acreditar nela, embora o presidente americano pareça adotar a narrativa do Kremlin.
- Trump "não é eterno" -
"Estou segura de que um dia a justiça será feita. Trump não é eterno", diz a mulher. Svitlana espera que um dia ocorra um julgamento público "para que todo mundo possa ver ao que a guerra leva".
O massacre de Bucha é o mais conhecido do conflito ucraniano, mas não é a única atrocidade da qual os militares russos são acusados.
As autoridades ucranianas abriram uma investigação por crimes de guerra. O Tribunal Penal Internacional (TPI) também está investigando e, em 2023, emitiu uma ordem de prisão contra o presidente russo, Vladimir Putin, por seu papel no envio "ilegal" de crianças ucranianas à Rússia.
Mas Trump decidiu impor sanções ao TPI e, segundo meios de comunicação, pôs fim às iniciativas dos EUA para identificar os responsáveis do ataque à Ucrânia e da deportação de crianças ucranianas.
As decisões destinadas a enfraquecer o TPI são "muito preocupantes", avalia Maryna Slobodyanuk, que investiga os abusos atribuídos a soldados russos em nome da organização Truth Hounds.
- "A guerra mais documentada" -
O "Tribunal para Putin", um coletivo de ONGs entre as quais estão a Truth Hounds e o Centro para as Liberdades Civis, Prêmio Nobel da Paz em 2022, afirma ter identificado até agora 12.000 pessoas assassinadas em casos que podem ser considerados crimes de guerra.
Oleksandra Matviichuk, que dirige a organização vencedora do Nobel, acredita que os obstáculos judiciais terminarão sendo superados.
"Essa é a guerra mais documentada da história da humanidade", acrescenta. "Se a comunidade internacional não tem vontade política de fazer justiça agora, aproveitaremos as oportunidades no futuro, quando a situação tiver mudado", argumenta.
Na igreja de Bucha, que recebeu vários funcionários estrangeiros, entre eles o procurador-geral do TPI, Karim Khan, Galavin pede justiça para que os sobreviventes possam reconstruir suas vidas.
"À nossa igreja vêm pessoas que sofreram, que perderam familiares e amigos, que foram estupradas", afirma o sacerdote. "Um dia, as armas se calarão, mas [as pessoas] devem poder retomar suas vidas".
D.Schneider--BTB