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Venezuela denuncia agressões a imigrantes em megaprisão salvadorenha
Abusos sexuais, agressões diárias e alimentos estragados: o governo de Nicolás Maduro denunciou nesta segunda-feira (21) "torturas" aos imigrantes venezuelanos enviados pelos Estados Unidos à megaprisão para membros de gangues de El Salvador.
Na sexta-feira, 252 venezuelanos foram repatriados como parte de uma troca de prisioneiros entre Washington e Caracas, que, por sua vez, libertou 10 cidadãos e residentes americanos detidos na Venezuela.
O procurador-geral da Venezuela, Tarek William Saab, anunciou nesta segunda uma investigação contra o presidente salvadorenho, Nayib Bukele, e outros funcionários de seu governo, aos quais acusou de cometer crimes contra a humanidade.
Os imigrantes ainda não se reuniram com seus familiares. Desde sua chegada, estão realizando exames de saúde, receberam novos documentos e são entrevistados pelo Ministério Público. Uma reunião com Maduro também pode acontecer nesta segunda.
Assim como seus compatriotas, Mervin Yamarte passou mais de quatro meses na prisão salvadorenha. Sua mãe, Mercedes, tem uma festa preparada para recebê-lo na cidade de Maracaibo.
Há balões, cartazes e comida, mas Mercedes não faz ideia de quando seu filho chegará. No meio do almoço, ela recebeu uma ligação: "Mãe, é o Mervin".
"Fiquei quatro meses e sete dias sem ouvir a voz do meu filho. Ouvi-lo foi uma alegria, é uma alegria que não consigo descrever", disse Mercedes Yamarte à AFP.
- "Saíram do inferno" -
O procurador-geral indicou que 80 funcionários do Ministério Público entrevistaram os imigrantes em seu retorno ao país.
Saab apresentou depoimentos de alguns deles nos quais mostraram hematomas por todo o corpo e marcas de balas de borracha. Um tinha a boca ferida, outro uma cicatriz no ombro.
Andry Hernández Romero, um maquiador e estilista de 32 anos que acabou no temido Centro de Confinamento do Terrorismo (Cecot), disse em um vídeo que foi abusado sexualmente.
"Estivemos lá passando por tortura, sofrendo agressões físicas, agressões psicológicas", afirmou no vídeo. "Fui abusado sexualmente pelas próprias autoridades salvadorenhas [...] Achávamos que nunca mais íamos ver nossos familiares."
Erkia Palencia, mãe de Andry Palencia, outro dos libertados, contou mais cedo à AFP que seu filho sofreu agressões. "Disse que bateram neles, que atiraram contra eles e mostrou uma cicatriz perto da sua orelha", indicou. "Saíram do inferno."
O procurador venezuelano também relatou o "isolamento em celas desumanas [...] sem contato com a luz solar, sem ventilação" e "ataques sistemáticos com balas de borracha".
E destacou que eles recebiam comida estragada e água imprópria para consumo. Nunca tiveram acesso a advogados ou contato com familiares.
No entanto, a própria Venezuela enfrenta denúncias constantes de torturas a opositores políticos presos no país, e por sua recusa em permitir que tenham um advogado privado.
O governo de Maduro enfrenta uma investigação por crimes contra a humanidade no Tribunal Penal Internacional (TPI).
- Negociações com os EUA -
Os Estados Unidos acusaram sem provas os venezuelanos deportados a El Salvador de pertencerem ao Tren de Aragua, uma quadrilha criminosa que o presidente Donald Trump declarou como "organização terrorista".
O republicano invocou uma lei de inimigos estrangeiros de 1798 para expulsar os venezuelanos rapidamente em março.
Sua libertação foi resultado de uma negociação com representantes americanos. O acordo foi finalizado apenas horas antes da troca, segundo o presidente do Parlamento venezuelano, Jorge Rodríguez, que liderou as negociações com os EUA.
Também na sexta-feira, chegou um avião com deportados dos Estados Unidos, que incluía sete crianças separadas dos seus pais.
"Enquanto o avião com as sete crianças estava chegando, nós estávamos em outro hangar coordenando com os gringos para que o avião com os espiões e terroristas" fosse para os Estados Unidos, disse Rodríguez nesta segunda em coletiva de imprensa, referindo-se aos libertados na troca. "E que saíssem de El Salvador os dois aviões com nossos compatriotas."
A troca incluiu a libertação de outros 80 venezuelanos detidos na Venezuela, considerados "presos políticos" pela oposição. Rodríguez, no entanto, garantiu que essa medida coincidiu com um processo de negociação interno paralelo.
K.Brown--BTB