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Procurador-geral interino dos EUA impulsiona desejos de Trump no Departamento de Justiça
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, demitiu Pam Bondi do cargo de procuradora-geral no mês passado por não ter conseguido processar com sucesso vários de seus supostos adversários políticos.
Trump nomeou Todd Blanche, seu antigo advogado pessoal, como sucessor interino de Bondi, e o ex-promotor assumiu com entusiasmo a tarefa de cumprir os desejos do presidente republicano.
Bondi "dirigia o Departamento de Justiça mais como o escritório de advocacia pessoal de Donald Trump do que como um Departamento de Justiça imparcial", disse Barbara McQuade, professora de Direito da Universidade de Michigan.
"Mas acho que só piorou desde que Todd Blanche apareceu", acrescentou a ex-promotora federal em declarações à AFP.
Bondi, em particular, não conseguiu levar a julgamento os casos contra o ex-diretor do FBI James Comey, um crítico declarado de Trump, e a procuradora-geral de Nova York Letitia James, que apresentou uma importante ação civil por fraude imobiliária contra Trump depois que ele deixou a Casa Branca em 2021.
Desde que substituiu Bondi, Blanche obteve uma nova acusação contra Comey, por supostamente ameaçar a vida de Trump em uma publicação no Instagram que mostrava uma foto dos números "8647" escritos com conchas do mar.
A acusação sustenta que "86" é uma gíria para "matar" e "47" uma referência ao fato de Trump ser o 47º presidente dos EUA.
Randall Eliason, ex-promotor federal, classificou o caso contra Comey como uma "piada" e acrescentou que "não há nada de engraçado no abuso de poder que ele representa".
"Não se trata de processar um caso criminal legítimo", escreveu Eliason em uma publicação no Substack. "Trata-se de usar o sistema de justiça para punir alguém percebido como inimigo de Trump."
"Mesmo que não termine em condenação", disse ele, "uma acusação desse tipo causa um enorme dano emocional e financeiro. E esse é precisamente o objetivo", explicou.
Blanche também recentemente mirou uma importante organização de direitos civis, o Southern Poverty Law Center (SPLC), considerado há muito tempo uma pedra no sapato de grupos de direita.
O SPLC enfrenta acusações de fraude eletrônica, fraude bancária e conspiração para cometer lavagem de dinheiro por seu uso de doações para pagar informantes confidenciais em grupos de ódio como a Ku Klux Klan e o Partido Nacional-Socialista dos Estados Unidos.
- "Dever" -
Em sua primeira entrevista coletiva após substituir Bondi, Blanche defendeu as investigações sobre indivíduos ou grupos que Trump considera opositores.
"É verdade que alguns deles são homens, mulheres e entidades com os quais o presidente, no passado, teve problemas e considera que devem ser investigados", disse. "Esse é o direito dele e, de fato, é seu dever fazê-lo", acrescentou.
Blanche rejeitou as acusações de que o Departamento de Justiça estava sendo usado como arma contra os inimigos de Trump e alegou que houve uma "instrumentalização" do departamento pelo governo de Joe Biden "como nunca se viu na história".
Blanche fez parte da equipe de defesa de Trump em casos em Nova York e nas duas ações apresentadas pelo procurador especial Jack Smith por suposto manejo indevido de documentos classificados e por tentar reverter os resultados das eleições presidenciais de 2020.
Os dois casos federais foram retirados depois que Trump venceu as eleições presidenciais de 2024.
McQuade afirmou que os "movimentos muito agressivos" de Blanche "dão ao menos a aparência de que ele está fazendo uma audição para o cargo de procurador-geral, tentando fazer e dizer coisas que provavelmente agradarão ao presidente Trump".
Blanche pode continuar como procurador-geral interino por 210 dias antes de ser confirmado pelo Senado.
Além de impulsionar processos contra seus supostos adversários políticos, Trump também promoveu uma expurgação de funcionários do governo que considerava desleais, mirou escritórios de advocacia envolvidos em casos anteriores contra ele e retirou recursos federais de universidades.
O ex-presidente democrata Barack Obama se pronunciou recentemente contra essas medidas, embora tenha evitado mencionar Trump nominalmente.
"A Casa Branca não deveria poder ordenar ao procurador-geral que saísse por aí processando quem o presidente quisesse processar", disse Obama no programa "The Late Show with Stephen Colbert".
"A regra, a ideia, é que o procurador-geral é o advogado do povo", lembrou Obama. "Ele não é o 'consigliere' do presidente."
C.Meier--BTB