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Alex Zanardi: as múltiplas vidas de um esportista idolatrado na Itália
Alex Zanardi, que faleceu na sexta-feira (1º) aos 59 anos, viveu várias vidas como atleta de alta velocidade: primeiro como piloto de corridas e, após um terrível acidente nas pistas, como campeão paralímpico de ciclismo. Uma trajetória que lhe rendeu amplo reconhecimento e adoração na Itália.
O ex-piloto de Fórmula 1 viu de perto a morte pela primeira vez em 2001, num terrível acidente em uma corrida do campeonato IndyCar realizada no circuito de Lausitzring, na Alemanha, no qual perdeu as duas pernas.
Naquele dia, seu carro parou no meio da pista após rodar, sendo então atingido em cheio na lateral por outro veículo que viajava a mais de 300 km/h.
O impacto foi terrível e Zanardi perdeu uma grande quantidade de sangue.
Um padre chegou a lhe dar a extrema-unção. Seu coração parou várias vezes e voltou a bater. No hospital em Berlim, o italiano passou por quinze cirurgias.
"Quando acordei, não pensei nas minhas pernas. Pensei na metade de mim que restava", confessou ele, refletindo que suas vitórias posteriores nos Jogos Paralímpicos "começaram exatamente ali, naquela cama de hospital".
Após duas passagens discretas pela Fórmula 1 (de 1991 a 1994, seguidas por um retorno em 1999 pela Williams), o italiano havia retornado à Championship Auto Racing Team (CART), o campeonato norte-americano de carros de open-wheel (rodas abertas) no qual fora bicampeão (1997 e 1998).
- "Pernas tremendo" -
Três meses após aquele acidente, ele fez sua primeira aparição pública em Bolonha, a cidade onde nasceu em 23 de outubro de 1966.
"Que emoção, minhas pernas estão tremendo!", brincou ele na ocasião.
Essa maneira de olhar para o passado com leveza, a fim de focar no futuro, tornou-se sua marca, primeiro ao volante de carros especialmente adaptados, mas logo depois a bordo de sua bicicleta adaptada, pedalando com as mãos.
Em 2007, em sua estreia, ele terminou em quarto lugar na Maratona de Nova York e já mirava os Jogos Paralímpicos de Londres, em 2012.
Da capital britânica, levou para casa duas medalhas de ouro (na prova de contra o relógio individual e na prova de estrada), antes de conquistar mais dois títulos na edição de 2016 no Rio (na prova de estrada e no revezamento por equipes).
Ele também ganhou duas medalhas de prata e venceu diversas maratonas, incluindo a de Nova York em 2011.
Mas, em junho de 2020, ele mais uma vez foi vítima de um acidente que poderia ter-lhe custado a vida, desta vez, ao guidão de sua bicicleta, durante uma corrida na Toscana.
Submetido novamente a várias cirurgias, ele jamais deixou de lutar, segundo os médicos que cuidaram dele.
O mais marcante em Zanardi era, acima de tudo, o seu sorriso.
No dia seguinte àquele acidente, esse sorriso radiante estampou a capa inteira dos jornais esportivos da Itália, tomando o lugar do futebol, que retomava gradualmente o protagonismo após meses de paralisação devido à pandemia de coronavírus.
- Mensagem do Papa -
A Itália nutria um imenso respeito por essa figura dos esportes adaptados, dez vezes campeão mundial, frequentemente convidado a estúdios de televisão para compartilhar sua força e entusiasmo.
"Por meio de seus resultados e de seu carisma, ele mudou nossa percepção sobre a deficiência", escreveu o La Gazzetta dello Sport em 2020.
Zanardi colocou esse carisma e essa energia inesgotável a serviço do esporte e das pessoas com deficiência.
Além de programas de televisão e de seu trabalho de dublagem para o filme de animação 'Cars', ele foi autor de diversos livros para popularizar sua 'regra dos cinco segundos': "Quando você tiver dado absolutamente tudo de si, aguente firme por mais cinco segundos. Esse é o ponto em que os outros já não conseguem ir além".
"Por meio do esporte, você nos ensinou a viver a vida na linha de frente, transformando a deficiência em uma lição de humanidade", escreveu-lhe o Papa Francisco em junho de 2020, após seu segundo acidente.
Uma mensagem de gratidão do Pontífice argentino compartilhada por toda a Itália e pelo mundo afora: "Obrigado por dar força àqueles que a haviam perdido".
W.Lapointe--BTB