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Divisões sobre Gaza e Ucrânia vêm à tona na reunião do G20 no Brasil
As divisões sobre Gaza e Ucrânia marcaram, nesta quarta-feira (21), a reunião de chanceleres do G20 no Rio de Janeiro, na qual o Brasil criticou duramente a "paralisia" do Conselho de Segurança da ONU para solucionar esses conflitos.
O encontro, o primeiro de alto nível deste fórum cuja presidência cabe ao Brasil este ano, acontece na esteira da polêmica causada pelas declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que acusou Israel de cometer um "genocídio" na Faixa de Gaza.
Também ocorre às vésperas de a guerra entre Rússia e Ucrânia entrar em seu terceiro ano.
"As instituições multilaterais [...] não estão devidamente equipadas para lidar com os desafios atuais, como foi mostrado pela inaceitável paralisia do Conselho de Segurança" em relação aos conflitos na Ucrânia e em Gaza, disse o chanceler brasileiro, Mauro Vieira, a seus pares ao abrir o encontro.
"Esse estado de inação implica diretamente em perdas de vidas inocentes", criticou.
O Brasil instou "uma profunda reformulação" dos organismos multilaterais, em especial do Conselho de Segurança, que tem fracassado reiteradas vezes em alcançar acordos sobre as guerras em Gaza e na Ucrânia por vetos respectivos dos Estados Unidos e da Rússia, dois de seus cinco membros permanentes.
Os Estados Unidos, principais aliados de Israel, voltaram a vetar na terça-feira uma resolução que pedia um cessar-fogo imediato em Gaza.
- Reunião entre Blinken e Lula -
Lula também comparou a campanha militar israelense no território palestino ao Holocausto.
"o secretário abordou o assunto [de Gaza] e deixou claro nosso desacordo com esses comentários", disse um alto funcionário do Departamento de Estado após o encontro.
As declarações de Lula provocaram indignação em Israel, que declarou Lula "persona non grata". Em resposta, o Brasil convocou o embaixador israelense e chamou para consultas seu embaixador em Tel Aviv.
Mais de quatro meses depois de Israel lançar uma ofensiva na Faixa de Gaza, em resposta ao ataque sem precedentes do movimento islamista palestino Hamas que deixou 1.160 mortos, segundo balanço da AFP com base em dados oficiais israelenses, nada indica que o fim do conflito esteja próximo.
A ofensiva israelense na Faixa de Gaza já deixou ao menos 29.313 mortos, segundo o Ministério da Saúde do território.
- Sem espaço para a diplomacia -
Tampouco há otimismo no horizonte para a guerra na Ucrânia.
Blinken disse a Lula que Washington "não vê condições" atualmente para uma mediação diplomática no conflito no Leste Europeu, segundo o funcionário do Departamento de Estado.
A visita de Blinken ao Rio coincide com a do ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov. Contudo, um encontro entre ambos é pouco provável.
Nesta quinta-feira, Lavrov se reunirá com o presidente Lula em Brasília, segundo fontes do Palácio do Planalto.
Enquanto isso, nesta quarta, o chanceler russo conversou no Rio com Mauro Vieira e seus pares de México, Alicia Bárcena; Bolívia, Celinda Sosa Lunda, e Paraguai, Rubén Ramírez.
As tensões entre o Ocidente e a Rússia se acentuaram após a morte na prisão do opositor Alexei Navalny, anunciada na sexta-feira.
Os países do Ocidente responsabilizaram Putin pelo falecimento do opositor e os Estados Unidos anunciaram que adotariam um "importante pacote de sanções" contra Moscou.
"Ninguém deve duvidar da natureza opressiva do sistema russo", disse o chanceler britânico, David Cameron, citado em nota na quarta-feira.
- "Conversas produtivas" -
Mauro Vieira enfatizou que o G20 manterá "conversas produtivas" sobre as crescentes tensões internacionais, "sem necessariamente carregar o peso de posições arraigadas e rígidas que têm impedido avanços em outros foros, como o Conselho de Segurança" da ONU.
"O Brasil está profundamente preocupado com a situação internacional atual no tocante a paz e segurança" com um número recorde de conflitos em curso em todo o mundo - mais de 170 -, assegurou.
Vieira criticou que os gastos militares mundiais superem anualmente os 2 trilhões de dólares (R$ 9,8 trilhões, na cotação atual), enquanto para a ajuda ao desenvolvimento ou aos compromissos do Acordo do Clima em Paris sejam destinados apenas 3% e 5% deste montante, respectivamente.
O Brasil também fez da luta contra a fome e a ação internacional contra as mudanças climáticas prioridades de sua presidência do bloco. No entanto, não se esperam avanços nesta reunião de dois dias.
Uma fonte do governo brasileiro explicou que a Presidência decidiu que já não será preciso alcançar um comunicado conjunto em cada encontro, com a exceção da cúpula de líderes do G20, que será realizada no Rio em novembro.
burs-ll/app/nn/mvv/yr/rpr
A.Gasser--BTB