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Crime ofusca eleição de juízes no México; ex-advogada de 'El Chapo' entre os candidatos
Em uma rua da mexicana Ciudad Juárez, próxima da fronteira com os Estados Unidos, a advogada Silvia Delgado pede votos aos transeuntes. Ela quer ser eleita juíza, após ter defendido o famoso chefão do narcotráfico Joaquín "El Chapo" Guzmán.
Sua candidatura é uma das mais questionadas às vésperas da eleição no próximo domingo (1), que tornará o México no primeiro país do mundo a escolher todos os seus juízes pelo voto popular.
Entre os aspirantes que uma ONG considera "arriscados" estão, ainda, um homem que esteve preso nos Estados Unidos por tráfico de drogas, o ex-advogado de um narcotraficante sanguinário e um ex-promotor acusado de ameaçar dois jornalistas que depois foram assassinados.
Delgado, de 51 anos, é conhecida por ter integrado a equipe legal de "El Chapo" Guzmán em Ciudad Juárez, onde o fundador do violento cartel de Sinaloa esteve detido antes de ser extraditado aos Estados Unidos, em 2017.
"Defendi muitíssimas pessoas. Auxiliei e em alguns casos fui assessora jurídica da vítima", diz a jurista à AFP, ressaltando que ter assistido Guzmán em suas audiências não faz dela uma "criminosa".
Em sua avaliação, ela foi contratada por seus conhecimentos. "Você vai ter uma juíza imparcial e preparada", promete ela a um vendedor ambulante perto da ponte internacional Paso del Norte.
- "Sou o mais imperfeito" -
A ONG Defensorxs - crítica da eleição judicial - publicou em seu site na internet cerca de 20 nomes de candidatos aos quais aponta por ter vínculos com o crime organizado e outros crimes.
Em seu perfil sobre Delgado, assegura: "candidatura altamente arriscada (...), defende supostos narcotraficantes".
Não se trata de uma anotação pequena no México, onde a guerra contra as drogas, lançada em 2006, deixou mais de 480.000 mortos e cerca de 120.000 desaparecidos.
O cartel liderado por "El Chapo" trava uma guerra interna que resultou em 1.200 mortos desde setembro passado em Sinaloa (noroeste), em meio à pressão do presidente americano, Donald Trump, sobre o México para frear o tráfico de fentanil, associado a dezenas de milhares de mortes por ano nos Estados Unidos.
A lista também inclui Leopoldo Chávez, aspirante a juiz federal no estado de Durango, que esteve preso por quase seis anos nos Estados Unidos (2015-2021) por tráfico de metanfetaminas.
"Nunca me vendi a vocês como o candidato perfeito", afirmou em um vídeo postado no Facebook. "Sou o mais imperfeito, mas o que mais tem vontade de fazer isto dar certo", acrescentou.
Também consta o nome de Fernando Escamilla, candidato a juiz penal no estado de Nuevo León (norte), que foi advogado de Miguel Ángel Treviño, um dos líderes do cartel de Los Zetas, caracterizado por seus brutais métodos de execução. Treviño foi extraditado aos Estados Unidos em fevereiro.
Outros citados são Francisco Herrera, de Michoacán (oeste), apontado pela imprensa por ter ameaçado os jornalistas Roberto Toledo e Armando Linares, assassinados em 2022. Herrera nega qualquer envolvimento no crime.
Job Daniel Wong, ministro da igreja Luz do Mundo, também é candidato a ser juiz do trabalho em Jalisco (oeste). O líder da congregação, Naasón Joaquín García, foi condenado nos Estados Unidos por abuso sexual de menores.
A presidente do México, Claudia Sheinbaum, minimizou o peso destas candidaturas. "É 0,01% de todos" os candidatos, disse.
No domingo serão eleitos 2.600 juízes; outros 4.000 serão votados em 2027.
- Falta de rigor -
Os milhares de candidatos foram selecionados pelos três poderes do Estado após uma reforma judicial impulsionada pelo governo de esquerda com o argumento de combater a impunidade. Mas, segundo seus críticos, abre as portas para criminosos e politizará a justiça.
O líder governista no Senado, Gerardo Fernández Noroña, afirmou que defensores de narcotraficantes "não deveriam participar" da votação.
Mas a ex-advogada de "El Chapo", que foi selecionada pelo Executivo estadual de Chihuahua, alega que defender o chefão do tráfico não deveria ser um estigma, pois toda pessoa "tem direito a ser assistida por um advogado".
A autoridade eleitoral qualificará a validade destas candidaturas logo após as eleições. Um dos requisitos é "gozar de boa reputação e não ter sido condenado" à prisão.
O diretor da Defensorxs, Miguel Alfonso Meza, culpa por esta situação a urgência com que foi aprovada a reforma constitucional e a falta de rigor nos filtros.
"É impressionante que para ser (oficial de) trânsito municipal você tenha que fazer um exame de controle de confiança, mas para ser um juiz penal que resolve casos do Cartel Jalisco Nova Geração, o único que você tem que fazer é mandar seu currículo", critica.
L.Dubois--BTB