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Feministas e médicos se unem aos aposentados argentinos em protesto contra Milei
Milhares de manifestantes, entre eles cientistas, feministas, médicos e pessoas com deficiência, juntaram-se nesta quarta-feira (4) ao protesto semanal dos aposentados em Buenos Aires contra as medidas de austeridade do governo do presidente argentino Javier Milei.
Com palavras de ordem como "o ajuste e a crueldade não se enfrentam sozinhos" e "tirem a motosserra dos nossos direitos", os manifestantes se mobilizaram na tarde desta quarta diante de um Congresso cercado e com um amplo esquema de segurança.
Grupos de aposentados, acompanhados por grupos de esquerda, se manifestam todas as quartas-feiras em frente ao Parlamento para protestar contra os baixos níveis de suas aposentadorias, um dos setores mais afetados pelos cortes graças aos quais o presidente conseguiu conter a inflação e equilibrar as contas.
Desde sua posse em dezembro de 2023, o governo de Milei aplicou um programa de redução dos gastos públicos equivalente a 4,7% do Produto Interno Bruto, segundo dados de fevereiro do Instituto Argentino de Análise Fiscal (Iaraf).
Com essas medidas, conseguiu reduzir pela metade o índice de inflação, que passou de 211% em 2023 (quando Milei desvalorizou o peso em 50%) para 118% em 2024, com 47% interanual em abril.
"São os aposentados e as aposentadas que estão sofrendo um terço do ajuste da motosserra que se tornou mundialmente conhecida, mas que está afetando muito as condições de vida da população", disse à AFP durante o protesto Luci Cavallero, militante feminista.
As manifestações, cuja repressão tem aumentado, já receberam o apoio de torcidas de futebol e da Igreja.
"O mais terrível de tudo é como somos reprimidos sem nenhum pudor. É muito triste para mim, nesta idade. Eu me manifesto desde os 17 anos e nunca pensei que teria que passar por isso novamente", declarou à AFP Cristina Rivada, aposentada de 74 anos que participa de todos os protestos de quarta-feira.
- "Não há outra opção" -
Enquanto o protesto se desenrolava, os deputados debatiam iniciativas da oposição, como um aumento de 7,2% nas aposentadorias e uma declaração de emergência na área de deficiência, projetos que o governo rejeita devido ao seu custo fiscal.
Do lado de fora, Evangelina Caro, de 49 anos, levava em uma mão um cartaz dizendo "sou uma pessoa (não um gasto), com direitos (não privilégios)" e na outra, seu filho Benicio, de 14 anos, com autismo.
"Passo a passo, estão cada vez mais vulnerabilizando os direitos das pessoas com deficiência. Não nos resta outra escolha a não ser ir às ruas, não é algo que gostamos, mas não há outra opção", diz.
Médicos residentes do hospital infantil Garrahan, de referência nacional e internacional, irão se juntar ao protesto para exigir melhores rendimentos.
Atualmente ganham o equivalente a 660 dólares (3.741,40 reais) mensais. Apesar do governo ter anunciado no domingo um aumento com o qual esperava pôr fim ao dias de greve, os profissionais sustentam que se trata apenas de um bônus e mantiveram o chamado para se manifestar.
"Exigimos que acabem com as ameaças de demissões aos trabalhadores e aumentem os salários", disse nesta quarta no X o chefe do sindicato de funcionários públicos, Rodolfo Aguiar, após uma audiência de negociação mal sucedida com o governo.
O porta-voz da Presidência, Manuel Adorni, advertiu na semana passada que "os médicos devem ganhar mais, mas por trás disso, sempre algum esperto quer manter um privilégio", acusando o hospital de ter mais funcionários administrativos do que médicos.
- Multissetorial -
Também participaram do protesto cientistas e pesquisadores em rejeição aos cortes no setor e à fuga de cérebros.
Uniram-se ainda universitários, familiares de pessoas com deficiência e coletivos feministas, que comemoram 10 anos do movimento contra a violência sexual "Ni una menos".
"Como feministas, não temos o que fazer se não abraçar essa luta e chamar todos os setores que estão sendo afetados para que se juntem", defendeu Cavallero.
Os protestos semanais de aposentados se tornaram o principal foco de resistência às políticas de Milei.
Os aposentados com renda mínima recebem o equivalente a 300 dólares (1.700,64 reais) mensais, justo no limite da pobreza.
R.Adler--BTB