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Lula, a figura central da esquerda em uma corrida contra o tempo
Sem camisa e suando sobre sua esteira, Luiz Inácio Lula da Silva corre. Aos 80 anos, quer provar que tem energia suficiente para buscar um quarto mandato presidencial nas eleições de outubro.
"A gente não pode controlar a rotação da terra para evitar que os anos passem", filosofa, com sua voz rouca, Lula em um dos vídeos em que mostra suas rotinas de exercícios nas redes sociais.
O líder da esquerda sobreviveu a derrotas eleitorais, à prisão e ao estigma de uma condenação por corrupção que, anulada por questões processuais, ainda serve de argumento para que a direita o chame de "Lula ladrão".
Também sobreviveu a problemas de saúde, entre eles uma queda no banheiro que, no fim de 2024, provocou uma hemorragia intracraniana. Segundo seu médico, "corria o risco de acontecer o pior".
Desde então, quase sempre usa um chapéu-panamá sobre os cabelos, antes escuros e abundantes, hoje brancos e ralos, assim como sua barba.
Mas ele insiste: diz estar em melhor forma do que quando foi eleito presidente pela primeira vez, em 2002, para comandar o Brasil. E sonha em "viver até os 120 anos".
- Sem celular -
Nascido em 27 de outubro de 1945 em uma família pobre de lavradores de Caetés, Pernambuco, o menino engraxate que depois se tornou operário metalúrgico e sindicalista chegou triunfante, em janeiro de 2003, ao Palácio do Planalto, em Brasília.
Reeleito em 2006, deixou o poder com popularidade recorde, impulsionada por programas sociais financiados graças ao boom das commodities, apesar dos grandes escândalos de corrupção que atingiram seu lado político.
Em 2022, Lula derrotou por margem mínima o então presidente Jair Bolsonaro (PL). O principal nome da direita seria posteriormente condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado, ao tentar impedir que Lula assumisse o poder.
De volta ao governo, o eterno líder do Partido dos Trabalhadores se mostra, num primeiro momento, deslocado de um Brasil que ele parece redescobrir: ultrapolarizado e assolado pela desinformação.
Como símbolo dessa distância, continua vivendo sem celular, enquanto a população brasileira está massivamente conectada.
Restabeleceu as políticas sociais desmontadas por seu antecessor, freou a devastação da Amazônia e devolveu certa normalidade ao funcionamento democrático do país.
Seu terceiro mandato, porém, tem ares de um remake entediante, com poucas ideias novas. E esse pai de cinco filhos (um dos quais, Lulinha, enfrenta problemas com a Justiça) desperta uma forte rejeição em grande parte da opinião pública, exasperada com a situação do país, a violência e a corrupção.
- O "Biden brasileiro" -
Em 2022, Lula assegurou que, se vencesse, aquele seria seu último mandato.
Por que, então, esse torcedor fanático do Corinthians quer buscar um quarto mandato e enfrentar Flávio Bolsonaro (PL-RJ), um senador de 45 anos e filho mais velho de seu maior adversário político?
Lula, que nos últimos anos evitou promover um possível sucessor, argumenta que quer impedir que a extrema direita volte a "destruir" o país e deseja continuar "cuidando do povo".
"Está em plena forma", disse à AFP um diplomata estrangeiro, sob condição de anonimato, que o descreve como um "animal de campanha".
Flávio Bolsonaro é menos generoso: "O Biden brasileiro está ranzinza, inconsequente e se tornou um perigo para a nossa nação. Quem olha pro Lula não enxerga futuro".
Para Lula, Joe Biden é o contraexemplo absoluto. O naufrágio, ao vivo, do octogenário presidente dos Estados Unidos durante a campanha pela reeleição em 2024 o impactou visivelmente.
A agenda repleta de viagens e discursos demonstra sua resistência física, para a qual também contribui Janja, de 59 anos, sua terceira esposa, feminista e aliada-chave para o campo progressista.
Se perder em outubro, Lula deixará o poder pela porta dos fundos.
Mas isso não apagará uma trajetória sem paralelo na história do Brasil.
Foi o que recordou em julho de 2024, diante de veículos de imprensa estrangeiros, entre eles a AFP, no Palácio da Alvorada: "Não tem ninguém nesse país que tenha mais experiência de presidente do que eu".
W.Lapointe--BTB