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EUA revoga visto de embaixadora do Brasil por disputa diplomática com governo Lula
Os Estados Unidos anunciaram nesta terça-feira (4) que revogaram o visto da atual embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, devido à falta de concessão do agrément para o embaixador indicado por Washington para Brasília.
A decisão não significa que Ribeiro Viotti tenha de deixar o país. A diplomata pode permanecer nos Estados Unidos enquanto o impasse diplomático não for superado, explicou um alto funcionário do Departamento de Estado durante uma entrevista coletiva por telefone com jornalistas.
"Isso não é o mesmo que expulsar a pessoa do país. Significa que ela pode permanecer aqui, mas sem visto, e que seu visto será restabelecido se a situação for normalizada e o agrément for concedido ao embaixador que escolhemos", afirmou.
"Se houver restrições para os diplomatas de uma das partes, elas serão aplicadas de forma recíproca. Dito isso, essa não é a situação que nos interessa", insistiu a fonte diplomática, sob condição de anonimato.
O presidente americano, Donald Trump, escolheu em 1º de junho uma importante liderança republicana do estado da Flórida, Daniel "Danny" Perez, como novo embaixador em Brasília. Sua confirmação pelo Senado foi adiada devido à falta desse "agrément", autorização concedida pelos governos anfitriões antes de receber um embaixador.
A fonte diplomática explicou aos jornalistas que o governo Trump concluiu que esse aval do governo brasileiro "provavelmente será adiado para depois das eleições" presidenciais de outubro.
– Incidentes recentes –
A embaixadora brasileira em Washington ocupa o cargo desde 2023.
A decisão diplomática, que dificulta ainda mais as já tensas relações entre os dois países, ocorre após vários incidentes registrados nos últimos meses.
Em março, um alto funcionário americano que participaria de uma conferência sobre minerais críticos no Brasil teve o visto negado, explicou a fonte.
Em 25 de julho, Brasília voltou a negar vistos a dois funcionários americanos que pretendiam se reunir com autoridades eleitorais a menos de três meses das eleições presidenciais, por "risco de instrumentalização política".
Segundo uma fonte diplomática brasileira, esses funcionários pretendiam discutir com diferentes interlocutores questões relacionadas à "liberdade de expressão no contexto das eleições".
As eleições de outubro prometem ser acirradas e colocam frente a frente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que está preso.
Flávio Bolsonaro esteve várias vezes nos Estados Unidos e foi recebido, em caráter privado, pelo próprio Trump no Salão Oval da Casa Branca.
Em meio à onda de vitórias conservadoras em toda a América Latina, as eleições brasileiras ganham um significado especial na disputa diplomática entre as duas maiores potências do continente.
Neste mês, o governo Trump impôs duas rodadas de tarifas comerciais sobre produtos brasileiros, que se somaram a outras sanções contra a maior economia da América do Sul adotadas por Washington desde o ano passado.
"Quem quiser de fora vir se meter nas eleições brasileiras, já vou avisando logo: vão apanhar muito", alertou Lula recentemente durante uma convenção do Partido dos Trabalhadores em São Paulo.
"Atribuímos grande importância à relação com o Brasil. Respeitamos o povo brasileiro e qualquer governo que ele escolha livremente por meio de eleições livres e justas", enfatizou a fonte do Departamento de Estado.
As ações brasileiras não poderiam ficar sem resposta, assegurou a fonte, mas o objetivo é recolocar as relações diplomáticas nos trilhos.
A embaixadora Ribeiro Viotti participou, em 22 de julho, de um evento sobre investimentos americanos na América Latina organizado por um centro de estudos em Washington, constatou a AFP.
Lula foi recebido por Trump na Casa Branca em 7 de maio, e ambos manifestaram o desejo de reduzir as tensões bilaterais.
No entanto, o governo Trump mantém uma política comercial agressiva que vai além do Brasil e até mesmo da América Latina, utilizando as tarifas como instrumento de negociação.
Trump também considera que sua influência política beneficia seus aliados na região e, embora preserve as formalidades diplomáticas, busca apoiar abertamente candidatos conservadores alinhados a ele em diferentes países.
Lula se opõe à agenda de supremacia defendida por Trump e critica abertamente seu desejo de promover uma nova mudança de regime em Cuba, como ocorreu na Venezuela.
B.Shevchenko--BTB