Berliner Tageblatt - Três pontos para entender por que Ortega quer excluir oposição das eleições

Três pontos para entender por que Ortega quer excluir oposição das eleições
Três pontos para entender por que Ortega quer excluir oposição das eleições / foto: © El 19 DIGITAL/AFP

Três pontos para entender por que Ortega quer excluir oposição das eleições

O presidente Daniel Ortega minimizou a condenação internacional por sua decisão de proibir formalmente a participação de membros da oposição nas eleições da Nicarágua, onde governa com poder absoluto ao lado de sua esposa, Rosario Murillo.

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O Congresso anunciou que aprovará em setembro uma reforma constitucional que estabelece um mandato presidencial de sete anos "renovável" e exclui os partidos de oposição aos que Ortega classifica como "golpistas" a "serviço" dos Estados Unidos.

O presidente revelou sua iniciativa em 19 de julho, no aniversário da Revolução Sandinista. Segundo ele, assim protege o país da interferência de Washington, que acusa de patrocinar os protestos de 2018, cuja repressão deixou cerca de 350 mortos, segundo a ONU.

Estas são os principais aspectos que explicam sua decisão.

- Sucessão -

O ex-guerrilheiro de esquerda governou na década de 1980 após a insurreição que derrubou o ditador Anastasio Somoza. Voltou ao poder em 2007 e permanece à frente do país, sendo acusado por seus críticos de reeleições fraudulentas e de instaurar uma "ditadura dinástica".

Em 2021, prendeu os candidatos com chances de derrotá-lo e, ao acusá-los de "traição à pátria", os baniu e retirou sua cidadania, assim como quase 500 ativistas políticos, humanitários, intelectuais, jornalistas e padres.

A oposição já estava então anulada de fato, de modo que, para Dora María Téllez, ex-comandante guerrilheira refugiada na Espanha, o ponto crítico da reforma está na "renovação" de mandato, mais do que na eliminação do pleito.

Aos 80 anos, com lúpus e problemas renais, Ortega reformou a Constituição em 2025 para elevar Murillo de vice a copresidente e subordinar a eles todos os poderes do Estado.

Para o ex-candidato à presidência Félix Maradiaga, exilado nos Estados Unidos, o mandatário busca garantir uma sucessão do poder em Murillo, cinco anos mais jovem, e em Laureano, de 42 anos, um de seus oito filhos em cargos públicos.

"Eles têm um trauma sucessório e medo", disse Téllez à AFP, destacando que ambos temem não apenas a oposição, mas também traições dentro da governante Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN, ex-guerrilha), cujos vários dirigentes históricos foram presos.

- Pressão internacional -

Maradiaga e Téllez não descartam que a reforma busque antecipar as pressões do presidente dos EUA, Donald Trump, para que obriguem a abrir espaço para a oposição.

Assim como a União Europeia, os Estados Unidos impuseram sanções ao governo nicaraguense desde 2018.

"Acabou o tempo das declarações sem ações", advertiu na quarta-feira Michael Kozak, responsável pela América Latina no Departamento de Estado, ao propor uma reunião de chanceleres da OEA para analisar medidas antes que a reforma seja aprovada.

Os Estados Unidos são o principal parceiro comercial da Nicarágua, que recebe crédito de bancos internacionais e do FMI.

"A pressão deve aumentar seriamente. Não podem continuar financiando uma ditadura", enfatizou Maradiaga.

Para Téllez, os comunicados de condenação não têm força sobre o governo, que aposta em "continuar fazendo o que bem entende com absoluta impunidade".

Para Luciano García, membro de um partido exilado na Costa Rica, Trump poderia aplicar na Nicarágua "a via cirúrgica, como foi a extração de Nicolás Maduro na Venezuela". Mas considera que a comunidade internacional "se inclina pelo caminho mais longo: sanções econômicas, apesar do alto custo para a população".

- Oposição -

Os protestos de 2018 "marcam um antes e um depois", diz García. Quase um milhão de nicaraguenses se exilaram, não há imprensa independente e, além da FSLN, poucos partidos minoritários estão alinhados ao governo.

Juan Sebastián Chamorro, também ex-candidato preso e agora exilado nos EUA, afirma que a Nicarágua, "como China, Coreia do Norte e Cuba", vai formalizar um sistema de partido único com a FSLN.

Maradiaga destaca, no entanto, que há uma "resistência interna silenciada pela prisão, a perseguição e o medo", e o desafio da oposição exilada é se conectar com ela e com o "descontentamento" existente, "inclusive na FSLN", para "construir uma alternativa democrática credível".

Para o ex-deputado Eliseo Núñez, refugiado na Costa Rica, a oposição deve buscar uma "mudança por via democrática (...) Outro caminho acionaria um novo ciclo de violência", advertiu.

C.Kovalenko--BTB