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Rasoulof sacode Cannes com filme sobre a luta das mulheres pela liberdade
O Festival de Cannes se rendeu, nesta sexta-feira (24), ao cineasta iraniano Mohammad Rasoulof, que acaba de fugir do seu país, e ao seu filme sobre a luta das mulheres pela liberdade, que se tornou o grande favorito à Palma de Ouro.
A ovação a "The seed of the sacred fig" na Croisette durou até 14 minutos, um dos momentos mais emocionantes da história do festival, um evento que sabe se transformar em uma plataforma política quando necessário.
"Espero que todo o aparato de opressão e ditadura acabe desaparecendo no Irã", declarou o cineasta, entusiasmado, entre duas das atrizes que conseguiram deixar o país.
Rasoulof, que deixou a República Islâmica a pé depois de ter sido condenado no início do mês a cinco anos de prisão e a levar chibatadas por "conluio contra a segurança nacional", agradeceu "a todos os que permitiram que este filme fosse feito, aos que estão aqui e aos que foram impedidos de vir".
- Um filme clandestino -
"The seed of the sacred fig" foi filmado clandestinamente no Irã, com atores e uma equipe que permaneceu em grande parte no país e agora corre sério perigo.
A obra conta a história de um juiz recentemente promovido aos tribunais revolucionários islâmicos, os mais temidos do país, e de sua esposa e duas filhas, no contexto das manifestações multitudinárias contra o regime após a morte da jovem Mahsa Amini.
Para isso, Rasoulof usa como recurso específico as imagens que os próprios iranianos filmaram com seus telefones durante anos de protestos e repressão, até transformar o filme em uma comovente homenagem a seus compatriotas, especialmente às mulheres.
O diretor explicou que teve a ideia quando estava na prisão e um carcereiro lhe contou o que sentia trabalhando ali.
"Todos os dias, quando passo por esta porta, a grande porta da prisão, me pergunto em que dia vou me enforcar", disse ele.
- Uma viagem "exaustiva" e "perigosa" -
A sentença judicial dos tribunais islâmicos contra Rasoulof se deve ao seu filme anterior que, como toda a sua obra, é uma crítica inequívoca ao regime.
O cineasta fugiu a pé, atravessando a fronteira com a Turquia, em uma viagem "exaustiva" e "perigosa", revelou. "Quando estava atravessando a fronteira, me virei, estava no topo de uma montanha e dei uma última olhada em minha terra natal.
Disse a mim mesmo: "'Voltarei'", declarou Rasoulof em um programa de televisão.
"Todos os iranianos que tiveram de partir devido a este regime totalitário têm sempre uma mala perto de si na esperança de que as coisas melhorem e possam retornar", acrescentou o diretor sentado ao lado da atriz Golshifteh Farahani, também iraniana.
Farahani, assim como outras atrizes das arriscadas filmagens de "The seed of the sacred fig", acompanharam Rasoulof no tapete vermelho.
Mas faltavam os dois principais protagonistas do longa, que não puderam comparecer.
Rasoulof mostrou suas fotos a todo momento: são eles o ator Missagh Zareh, que interpreta o juiz, e Soheila Golestani, que dá vida à esposa do magistrado.
- Uma festival aberto ao cinema iraniano -
Rasoulof, de 51 anos, havia pisado no tapete vermelho pela última vez em 2017, quando ganhou o prêmio da mostra paralela Um Certo Olhar por "Lerd", um filme sobre corrupção.
Em 2020 não lhe foi permitido sair do Irã para receber em Berlim o Urso de Ouro por "Não Há Mal Algum", uma leitura ácida da pena de morte, aplicada maciçamente pelo regime iraniano.
O cineasta apresentou três filmes em Cannes: "Adeus" (2011), "Manuscritos não queimam" (2013), além de "Lerd" (2017).
Rasoulof já havia estado preso entre julho de 2022 e fevereiro de 2023, e só foi libertado graças a uma anistia geral.
Cannes sempre abriu os braços ao cinema iraniano, que dá sinais surpreendentes de vitalidade.
Os diretores Jafar Panahi ("Taxi Tehran") e Saeed Roustaee ("Leila's Brothers") são alguns dos cineastas iranianos que lançaram filmes recentemente.
Além de "The seed of the sacred fig", Cannes vai assistir à estreia do último filme da mostra competitiva, "La plus précieuse des marchandises", filme de animação do francês Michel Hazanavicius, ganhador do Oscar com "O Artista".
O júri, presidido pela atriz e diretora Greta Gerwig, anunciará a lista de premiados no Festival de Cannes neste sábado (25).
C.Meier--BTB