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Desinformação alimenta tensões comerciais entre EUA e China apesar da trégua
Compras frenéticas pelo medo das tarifas, revelações de segredos sobre as marcas de luxo, manchetes enganosas: um turbilhão de desinformações alimenta a guerra comercial entre Washington e Pequim, apesar da trégua.
As duas maiores economias do mundo concordaram, em meados de maio, em suspender as tarifas que impuseram uma à outra por 90 dias, após 48 horas de negociações em Genebra.
No entanto, nas redes sociais, incluindo Douyin e Weibo da China, um aumento da fake news alimenta o sentimento antiamericano que poderia minar a frágil trégua.
Um vídeo com milhões de visualizações, compartilhado nestas plataformas e no TikTok, mostra americanos correndo para comprar televisões de marca chinesa supostamente após o anúncio de tarifas aduaneiras mais altas.
No entanto, as imagens são das ofertas da Black Friday de 2018 nos Estados Unidos.
Nas plataformas chinesas também surgiram afirmações infundadas sobre americanos que voavam para a China para fazer compras ou faziam longas filas para adquirirem produtos chineses no atacado. Veículos de comunicação chineses, entre eles o China Daily, ecoaram, amplificando as fake news.
"É quase certo que essas narrativas foram selecionadas pelo Estado (chinês), que aprendeu a explorar as redes sociais", estimou Andrew Mertha, especialista em China da universidade americana Johns Hopkins.
Segundo ele, isso ajuda a alinhar a opinião pública com a estratégia do governo de que "os Estados Unidos já estão sofrendo e a China, portanto, deve permanecer firme".
- "Bombardeio digital" -
No marco da trégua comercial, as duas potências mundiais concordaram em reduzir suas tarifas respectivamente de 145% para 30% sobre os produtos chineses e de 125% para 10% sobre os produtos americanos.
Algumas informações falsas apareceram antes do acordo de trégua, mas continuaram circulando nas redes sociais depois, criando confusão e desencadeando um caos informativo mais generalizado.
"Muitos amigo na China me perguntaram: não há mais ovos nos Estados Unidos? É muito perigoso? As pessoas estão se apressando para comprar coisas? Você fez estoque?", relatou à AFP Vivian Wei, uma criadora de conteúdo que vive em Chicago.
"Outros até sugeriram não vir aos Estados Unidos para fazer turismo ou estudar", complementou.
Os rumores levaram Wei a visitar vários supermercados em Chicago. Resultado: tudo transcorria com normalidade.
Em abril, a empresa de segurança contra a desinformação Cyabra identificou no X milhares de contas falsas ou administradas por bots, responsáveis por uma vasta campanha antiamericana.
Os ataques foram direcionados a marcas globais como Gucci, Chanel e Amazon, com a narrativa infundada de que elas produziam produtos na China, embora os rotulassem como "Feito na França" ou "Feito na Itália".
Estas contas culpavam as políticas comerciais de Trump por permitirem essas práticas de marketing enganosas, e incentivavam os consumidores a comprar produtos diretamente da China.
"Isso foi um bombardeio digital, um terço das contas não eram reais, mas a reação que desencadearam foi real", disse Dan Brahmy, diretor executivo da Cyabra.
No mês passado, jornalistas da AFP detectaram vídeos compartilhados no TikTok, criados por contas chinesas e que viralizaram, afirmando que marcas internacionais de luxo fabricavam secretamente seus produtos na China.
As marcas afetadas não responderam às alegações, que pareciam ser parte de uma campanha que aproveitava as tensões comerciais entre os Estados Unidos e a China para comercializar produtos de luxo falsificados.
Estas informações falsas, segundo Mertha, provavelmente não deixarão de circular apesar da trégua e das negociações comerciais em curso.
"Creio que estas narrativas continuarão e evoluirão paralelamente ao fortalecimento da posição do governo chinês nas negociações", estimou.
burs-ac/rr/lgo/roc/clc/ad/mel/rm/aa
E.Schubert--BTB