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Kast ajusta suas promessas após um turbulento início de governo no Chile
Quando José Antonio Kast assumiu a Presidência do Chile, em março, Franklin Prieto acreditou que os preços baixariam e que a segurança melhoraria. Cem dias depois, esse jovem de Santiago afirma não ter visto as mudanças que esperava.
Kast, um advogado de extrema direita de 60 anos, chegou ao poder com grandes ambições. Durante sua campanha, havia prometido expulsar os 340 mil migrantes em situação irregular que viveriam no Chile, segundo estimativas, endurecer o combate à criminalidade e reativar a economia.
Mas Prieto, um comerciante de 19 anos, diz sentir-se "decepcionado".
"Tudo o que a gente compra, como comida, subiu bastante", lamenta, enquanto percorre as ruas do centro da capital com seu carrinho carregado de 'chicha' (uma bebida fermentada local). O bairro da Independencia, onde ele mora e trabalha, ainda "está tomado pela criminalidade", assegura.
Prieto não é o único insatisfeito: segundo diferentes pesquisas, a desaprovação de Kast supera os 50%.
- Golpe no bolso -
A primeira grande decisão de Kast foi ajustar um fundo para amortecer a volatilidade dos combustíveis, o que fez dispararem seus preços em até 60% e aumentou o custo de vida.
O governo acusou a administração anterior do esquerdista Gabriel Boric, de ter deixado os cofres públicos enfraquecidos e priorizou a redução do déficit fiscal.
Solange Molina, uma funcionária administrativa de 44 anos, sentiu o baque. "Gasto menos em coisas como lazer ou diversão. Estou mais receosa de exagerar nesse tipo de gasto", diz.
Para impulsionar a economia, Kast propôs uma ampla reforma com o objetivo de aumentar a atividade por meio de reduções graduais do imposto sobre as grandes empresas e outros incentivos tributários.
Mas o governo acabou admitindo que não alcançaria suas metas até o fim do mandato, em 2030. Agora revisou sua previsão de déficit fiscal zero para 1,5% e reduziu sua projeção de crescimento do PIB de 4% para 3,5%.
"Sempre imaginamos que (a situação) poderia ser um pouco mais complexa, mas não na magnitude em que a encontramos", disse o ministro da Fazenda, Jorge Quiroz, ao reconhecer a revisão das expectativas econômicas.
- Agenda de segurança -
O combate à insegurança, outra das grandes promessas de Kast, também enfrentou obstáculos.
Embora o Chile continue sendo um dos países mais seguros da região, os homicídios e sequestros aumentaram na última década, associados à chegada de grupos criminosos estrangeiros, como o Tren de Aragua, uma quadrilha venezuelana.
Apesar de ser uma prioridade do governo, a recém-nomeada ministra da Segurança, Trinidad Steinert, reconheceu que não esperava que o Congresso lhe exigisse tão rapidamente um plano de segurança "estruturado e concreto".
Kast a demitiu após apenas 69 dias no cargo na mudança de gabinete mais rápida desde o retorno da democracia no país, em 1990.
Poucos dias depois, anunciou o envio de reforço policial a 50 bairros "contra os mercados ilícitos e o crime organizado" e penas mais duras para esses delitos. Também propôs um cadastro de "vândalos" voltado àqueles que atacarem a polícia ou danificarem monumentos. Essas pessoas poderiam perder certos benefícios, como gratuidade nos estudos universitários ou uma aposentadoria estatal.
- Migração irregular -
O governo Kast afirma ter endurecido sua política contra a imigração irregular. Seus críticos consideram, no entanto, que sua promessa de expulsar os migrantes sem documentos, majoritariamente venezuelanos, é irrealizável.
Em três meses, 639 pessoas foram expulsas, informou o governo à AFP. Nesse ritmo, atingiria o objetivo anunciado em cerca de 130 anos.
"O presidente estava completamente ciente de que essa promessa não tinha respaldo técnico nem capacidade concreta de ser colocada em prática", critica Constanza Schönhaut, deputada da Frente Ampla, o principal partido de oposição.
O Chile e a Venezuela não mantêm relações diplomáticas desde 2024, o que impede o governo chileno de organizar voos de repatriação para aquele país.
Como alternativa, Kast incentivará saídas voluntárias de migrantes. Em troca, os afetados não receberiam multas nem teriam proibido um eventual retorno ao Chile.
Apesar da queda de sua popularidade, Kast não enfrentou protestos em massa comparáveis aos de 2019, quando centenas de milhares de pessoas saíram às ruas para reivindicar melhorias sociais.
Para Roberto Morales, um pregador de 69 anos, o governo enfrenta "muitas coisas adversas" e é melhor esperar para avaliar sua gestão.
"Tem que passar um tempo para dar uma resposta definitiva", diz.
K.Thomson--BTB