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Bons vizinhos? Torcer contra Messi e Argentina, um fenômeno efervescente na América Latina
Uma fotomontagem da estrela espanhola Lamine Yamal com a camisa do Brasil e a frase "a esperança do povo brasileiro" viraliza nas redes sociais, à espera da final da Copa do Mundo entre Argentina e Espanha no domingo (19).
Apoiar os rivais da Albiceleste tem sido uma questão, neste campeonato, entre torcedores de futebol na América Latina, com memes, piadas e críticas que se multiplicam, para além da rivalidade histórica entre o Brasil de Pelé e a Argentina de Diego Maradona e Lionel Messi.
Em outros países como México, Colômbia, Equador ou Chile, muitos esperam que os atuais campeões comam o pó.
- Das redes sociais para as ruas -
Tradicionalmente, as seleções latino-americanas que iam longe na Copa do Mundo eram apoiadas pela torcida dessa região, "uma dinâmica de solidariedade" que "se rompe" com a Argentina, disse o sociólogo colombiano Germán Gómez à AFP.
Ele o considera "um fenômeno" da "era digital e das redes sociais", com a "construção de narrativas" que vinculam a equipe treinada por Lionel Scaloni à Fifa e seu presidente, Gianni Infantino.
"Argentina teve ajuda". "Eu acho que a Argentina está sendo muito favorecida... que há uma boa vontade da Fifa em relação à Argentina", disse Francisco Santos, torcedor brasileiro que troca figurinhas da Copa do Mundo em um shopping de São Paulo, cidade em que ecoaram gritos celebrando o gol da Inglaterra contra Messi e companhia nas semifinais.
Se o Brasil não pôde ser hexacampeão, "prefiro ver a Espanha bi que a Argentina tetra", solta, sorridente, este homem de 42 anos.
- A questão arbitral -
Chovem críticas às decisões da arbitragem, mesmo em casos em que especialistas as avaliam como corretas.
"Isso é o bonito do futebol, a polêmica. O Messi é uma lenda, é reconhecido e joga para caramba. Talvez até mereça ser bicampeão, mas não desse jeito", disse Antonia López, uma policial de 51 anos, na Cidade do México.
A imagem da Argentina também é abalada por acusações de racismo contra seus torcedores e seus jogadores, assim como pela lembrança dos cânticos de deboche da equipe por causa das origens africanas de jogadores da França após a final do Catar em 2022.
A Fifa condenou, nesta Copa do Mundo, um incidente em que um torcedor argentino dizia ao influenciador negro IShowSpeed que fosse "chorar no zoológico" durante uma transmissão ao vivo.
"Vou pela Espanha, mas no meu coração, Messi". Tem jogadores de "qualidade" e "não são tão metidos como os da Argentina", comenta Jeremy Rimachi, um torcedor de 22 anos, em Quito.
- "Somos insuportáveis" -
O próprio Messi, que contou com forte apoio na trajetória rumo à conquista da Copa do Mundo no Catar, reagiu.
"Há quatro anos conseguimos o que queríamos: jogar a última partida e ser os melhores durante quatro anos. Mais uma vez voltamos a mostrar que ninguém nos dá nada de presente", disse aos jornalistas. "Doa a quem doer".
Scaloni reconheceu que os questionamentos chegam ao elenco, mas provocam uma "espécie de rebelião" entre os jogadores para elevar ainda mais seu nível.
Uma marca de fernet, bebida alcoólica muito popular na Argentina, aproveitou para explorar, em tom bem-humorado, esse fenômeno, assim como os estereótipos sobre o ego argentino.
Sob o slogan "Somos insuportáveis", lançou um comercial em que torcedores com camisas de diferentes seleções estão sentados em círculos, como se estivessem recebendo apoio psicológico, e reclama da paixão desenfreada dos argentinos por sua seleção: "Não aguento mais eles!".
Em contraste com aqueles que aguardam sua queda, a chegada da seleção argentina a países latino-americanos para partidas das eliminatórias da Copa do Mundo costuma transbordar paixões. "Messi! Messi!" é um grito comum.
"Eu vou sim torcer pela Argentina" porque "é um país sul-americano", disse o estudante Valetino Tocto, de 20 anos, em Lima.
L.Dubois--BTB