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Rumores e alvoroço semeiam caos na fronteira entre Marrocos e Ceuta
Quando Fátima Zahra escutou que a fronteira com a Espanha estava aberta, decidiu tentar a sorte. Boatos divulgados pelas redes sociais levaram milhares de marroquinos como ela a se dirigir em massa para Fnideq, a cidade que faz fronteira com o enclave espanhol de Ceuta.
Cerca de 60 mil migrantes cruzaram, nos últimos dias, a fronteira entre Marrocos e Ceuta, afirmou nesta sexta-feira (31) Juan Vivas, presidente desta cidade espanhola no norte da África, que tem apenas 80 mil habitantes.
Nesta sexta-feira pela manhã, a desolação reinava na praça onde, à noite, milhares de pessoas se reuniram com a ambição de alcançar a cidade, a única fronteira terrestre europeia com a África, junto ao enclave espanhol vizinho de Melilla.
Uma contundente intervenção das forças de ordem expulsou os jovens para as colinas que dominam a zona fronteiriça.
Ao amanhecer, a polícia utilizou canhões de água e gás lacrimogênio para repelir as pessoas no momento em que saíam, enquanto elas respondiam lançando pedras, muitas vezes com a ajuda de estilingues, constatou um jornalista da AFP.
Incêndios eclodiram, destruindo dezenas de veículos, em particular táxis informais com os quais essas pessoas haviam chegado no dia anterior, vindas de cidades tão distantes como Marrakech, a mais de 600 quilômetros por estrada.
Como começou este fluxo? É difícil identificar o elemento desencadeador, mas várias pessoas entrevistadas pela AFP mencionaram boatos sobre a abertura das fronteiras e uma grande quantidade de publicações nas redes sociais ou em plataformas muito utilizadas pelos jovens, como o Discord.
- "Vamos tentar a sorte" -
Fátima Zahra estava trabalhando em Tânger, uma grande cidade industrial e portuária a cerca de 70 quilômetros, quando alguns amigos lhe disseram que o posto fronteiriço com Ceuta estava aberto.
"Neste momento, eu disse aos que estavam comigo que íamos até lá para trabalhar", explicou. A jovem marroquina disse que queria ir embora porque trabalha "em condições horríveis".
"Dissemos: vamos tentar a sorte nós também".
Mas, ao contrário das dezenas de milhares de pessoas que conseguiram entrar em Ceuta, Fátima Zahra e outros marroquinos foram rejeitados.
Karim, outro migrante frustrado, confirmou que muitas pessoas "estavam no trabalho e de repente ouviram dizer que as fronteiras estavam abertas, que alguns jovens tinham entrado e todo mundo acabou vindo parar aqui".
A televisão local espanhola El Faro divulgou imagens nas quais é possível ver jovens, entre eles uma adolescente, fazendo o V da vitória após terem passado para a Espanha.
As redes sociais divulgaram amplamente imagens que mostravam jovens adolescentes entrando em Ceuta, às vezes apenas de maiô, biquíni e chinelo.
- "Morrer diante dos meus olhos" -
Abdelhakim percorreu "14 quilômetros a pé pelas montanhas" até as portas de Ceuta, também impulsionado pelo rumor de que a fronteira estava aberta.
"Disseram para atravessar pelo mar. Mas eu acabei completamente submerso e vi dois jovens (...) morrerem diante dos meus olhos", disse. "Então eu voltei e me lembrei que tinha dois filhos".
As autoridades espanholas destacaram que ao menos 34 migrantes morreram na tentativa de entrar em Ceuta. Também afirmaram que ao menos 25 mil migrantes haviam retornado ao território marroquino.
A crise eclode em um momento simbólico no Marrocos, em plena Festa do Trono, que comemora a ascensão do rei Mohammed VI ao poder em 1999.
O monarca deve presidir, nesta sexta-feira, uma tradicional cerimônia de juramento de lealdade em seu palácio de Tetouan, a cerca de 30 quilômetros de Fnideq.
E.Schubert--BTB