Berliner Tageblatt - Outrora próspera, indústria têxtil de Bangladesh sofre com demissões em massa

Outrora próspera, indústria têxtil de Bangladesh sofre com demissões em massa
Outrora próspera, indústria têxtil de Bangladesh sofre com demissões em massa / foto: © AFP

Outrora próspera, indústria têxtil de Bangladesh sofre com demissões em massa

"Estou grávida de três meses. É impossível encontrar um novo emprego", lamenta Mosammat Aklima após descobrir que era uma das milhares de trabalhadoras demitidas da outrora próspera, porém agora fragilizada, indústria têxtil de Bangladesh.

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A notícia, comunicada por mensagem de texto, pôs fim a oito anos de emprego na fábrica Lithe Garments, uma das principais no coração industrial deste país asiático, que durante décadas forneceu roupas para lojas de departamento em todo o mundo.

Aklima, de 27 anos, foi uma das 3.000 pessoas demitidas de uma só vez, um sinal das dificuldades enfrentadas pela indústria devido à desaceleração das exportações, à fraca demanda dos consumidores e à forte concorrência de seus rivais, Índia e Vietnã.

Aklima ganhava 250 dólares (cerca de 1.276 reais) por mês, aproximadamente o mesmo que seu marido, que trabalha em outra fábrica de roupas. Com sua demissão, seu filho e seus pais idosos agora dependem de uma única renda.

Esses cortes fazem parte de uma recessão mais ampla em um setor que responde por cerca de 80% das receitas de exportação de Bangladesh.

Cerca de 400 das aproximadamente 4.000 fábricas de roupas do país fecharam nos últimos dois anos, com a perda de dezenas de milhares de empregos, segundo a Associação de Fabricantes e Exportadores de Vestuário de Bangladesh (BGMEA).

- "Perder competitividade" -

Os fechamentos alimentaram preocupações sobre o futuro de uma indústria que emprega mais de 4,5 milhões de pessoas, em sua maioria mulheres.

Embora as tarifas americanas sejam semelhantes para exportadores de vestuário em toda a Ásia, analistas apontam que Bangladesh enfrenta um desafio maior na Europa, seu principal mercado, onde Índia e Vietnã ganharam terreno graças a acordos de livre comércio.

A pressão pode se intensificar, já que Bangladesh está prestes a perder o acesso preferencial ao mercado europeu e a outros países, o qual lhe isenta de tarifas, já que seu status de país menos desenvolvido expira em 2029.

"Se Bangladesh não conseguir firmar acordos de livre comércio após o fim de seu regime comercial preferencial, o país pode correr o risco de perder competitividade", diz Selim Raihan, professor da Universidade de Daca.

As importações têxteis para a União Europeia caíram nos primeiros cinco meses do ano e as peças procedentes de Bangladesh registraram a queda mais acentuada entre os principais fornecedores, segundo dados oficiais.

Especialistas apontam para a fraca demanda relacionada aos conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio, mas também para as fragilidades estruturais dessa nação sul-asiática de 170 milhões de habitantes.

A indústria continua focada em produtos de baixa margem, como camisetas e calças jeans, enquanto seus concorrentes migraram para segmentos de maior valor agregado, confeccionados com fibras sintéticas.

Além disso, Bangladesh, que faturou 39 bilhões de dólares (cerca de 199 bilhões de reais) com exportações de vestuário em 2025, depende fortemente da importação de algodão e outras fibras, o que eleva os custos.

- "Ficamos estagnados" -

"Expandimos sem planejamento e sem consolidar a infraestrutura", diz Mohiuddin Rubel, fundador e CEO da Apparel Voice, um grupo de pesquisa e apoio ao setor.

"Ficamos estagnados nos produtos básicos", observa, acrescentando que Bangladesh não aproveitou totalmente as oportunidades em uniformes militares e vestuário médico.

A pesquisa também permanece limitada, enquanto a automação transforma as linhas de produção de seus concorrentes.

Nesse sentido, defensores dos direitos trabalhistas também se preocupam com o impacto que os avanços tecnológicos podem ter nos índices de emprego.

"Não vimos nenhuma política governamental integrada para gerenciar essa transição no setor manufatureiro", diz Syed Sultan Uddin Ahmed, diretor executivo do Instituto de Estudos Trabalhistas de Bangladesh.

Para os trabalhadores, os planos de longo prazo oferecem pouco consolo imediato.

Begum, que não revelou seu primeiro nome, disse à AFP que muitas fábricas em Gazipur a rejeitaram, apesar de sua experiência em costura.

Ela teve que voltar para sua cidade natal, no norte do país, para levar comida para sua família: "Não sei o que vai acontecer", lamenta.

L.Dubois--BTB