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Acusados de crimes contra a humanidade fogem em meio a caos no Sudão
Um funcionário do alto escalão do antigo regime islamita do Sudão, acusado de crimes contra a humanidade, confirmou que fugiu da prisão com ex-colaboradores, gerando temor de agravamento de um conflito que mergulhou o país africano no caos.
Uma trégua de 72 horas com mediação dos Estados Unidos entrou em vigor ontem, mas ficou em situação frágil depois que o Exército voltou a bombardear as forças paramilitares na capital, Cartum, nesta quarta-feira (26).
O Exército anunciou hoje "o envio de um representante a Juba", capital do Sudão do Sul, para uma nova rodada de negociações com os paramilitares, visando a prorrogar por 72 horas um cessar-fogo pouco respeitado por ambas as partes.
Ahmed Harun, um ex-conselheiro do ditador Omar al-Bashir, deposto em 2019 após grandes protestos, confirmou ontem que funcionários do antigo regime fugiram da prisão de Kober.
Harun e Al-Bashir são procurados pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) por "crimes contra a humanidade" e "genocídio" na região de Darfur, oeste do Sudão, onde o conflito que começou em 2003 deixou 2,5 milhões de deslocados, de acordo com a ONU.
Al-Bashir, 79 anos, também estava na penitenciária de Cartum, mas o exército informou que ele foi transferido para um hospital antes do início dos confrontos em 15 de abril.
O ex-ditador e outros integrantes de seu regime foram levados para uma unidade hospitalar militar "devido a suas condições de saúde (...) e permanecem no hospital sob vigilância da polícia judicial", afirmou o exército em um comunicado, sem revelar a data da transferência.
Esta foi a terceira fuga de uma prisão registrada desde o início dos combates entre o exército do general Abdel Fatah al-Burhan, governante de fato do Sudão desde o golpe de Estado de 2021, e seu rival, o general Mohamed Hamdan Daglo, líder das paramilitares Forças de Apoio Rápido (FAR).
Os confrontos provocaram pelo menos 512 mortes e cerca de 4.200 feridos no país do nordeste da África, de acordo com a ONU.
- Êxodo em massa -
"Ficamos no centro de detenção de Kober, sob o fogo cruzado desta batalha durante nove dias. Agora assumimos a responsabilidade por nossa proteção em outro lugar", disse Harun na terça-feira a um canal de televisão sudanês.
A promotoria do Tribunal Penal Internacional (TPI) indicou que está acompanhando os acontecimentos de perto e lembrou que a fuga dos prisioneiros de Kober não foi "confirmada de forma independente".
Com a redução da intensidade dos combates após o anúncio da trégua, vários países organizaram operações para retirar seus cidadãos do país, por terra, mar e ar.
Um navio com 1.687 civis de mais de 50 nacionalidades chegou nesta quarta-feira à Arábia Saudita, informou o Ministério das Relações Exteriores de Riad.
"Cerca de 6.000 pessoas de diferentes nacionalidades podem ter cruzado a fronteira com a Etiópia", disse uma autoridade sudanesa no posto fronteiriço de Gallabat, no leste do país.
A ONU calcula que em torno de 270.000 pessoas podem ter fugido do Sudão para os vizinhos Chade e Sudão do Sul.
Ao mesmo tempo, os sudaneses permanecem entrincheirados em suas casas e tentam sobreviver sem o abastecimento de água ou energia elétrica, com escassez de alimentos e cortes de internet e linhas telefônicas.
"Por que as autoridades não se importam com o povo sudanês e seu sofrimento?", perguntou Alnur Mohamed Ahmed, outro trabalhador. "As pessoas não podem sair de casa", lamentou.
Os dois lados afirmam controlar locais cruciais da capital, mas não é possível verificar as informações com fontes independentes. A União Africana alertou para "o perigo de uma escalada regional e de uma internacionalização do conflito".
- Riscos biológicos elevados -
A Organização Mundial da Saúde (OMS) advertiu na quarta-feira que está avaliando os riscos biológicos depois que um dos lados beligerantes ocupou um laboratório que armazena agentes patógenos muito contagiosos.
O órgão ainda acrescentou que mais de 60% dos centros de saúde do Sudão estão fechados atualmente.
Outro relatório da ONU alertou que a escassez de comida, água, medicamentos e combustíveis estava se tornando "extremamente aguda, em particular em Cartum e seus arredores".
"Em alguns locais, a ajuda humanitária é a única que mantém a fome sob controle", afirmou o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres.
O Sudão tem um longo histórico de golpes militares. A disputa entre Burhan e Daglo, que se aliaram para derrubar os civis do poder em 2021, é uma consequência dos planos de integrar as FAR ao Exército oficial.
A.Gasser--BTB