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Chipre, o novo parque de diversões dos exploradores urbanos
Sob um sol escaldante, os balanços fazem ranger suas correntes. Abandonado há 11 anos, o parque de diversões Tivoli de Nicósia é um playground para os adeptos da exploração urbana ("urbex"), que descobrem os segredos da última capital dividida do mundo.
Para conseguir entrar no local, Christos Zumides teve de afastar galhos, escalar uma parede, deslizar entre barras enferrujadas e caminhar entre cacos de vidro até chegar a uma pista de kart.
"Tenho tantas lembranças. Vínhamos aqui em família", conta o pesquisador emérito em Ciências, que há oito anos pratica a exploração urbana de locais abandonados.
O esporte clandestino consiste em explorar lugares proibidos, ou de difícil acesso. Faz parte do "turismo macabro", uma polêmica modalidade em que seus seguidores visitam locais relacionados a catástrofes, tragédias, ou guerras, explica Katerina Antoniou, especialista em turismo, à AFP.
O Chipre é considerado pelos praticantes desta atividade como "único" e "ideal", pois, além das ruínas comerciais como Tivoli, a ilha oferece a particularidade de estar dividida em duas, a República do Chipre, membro da União Europeia, ao sul, e a República Turca do Norte de Chipre (TRCN), reconhecida apenas por Ancara, ao norte.
Lá, "existem muitas questões éticas, porque (os urbex) visitam edifícios abandonados que são inacessíveis aos seus proprietários", pois estão localizados na fronteira entre as partes turca e grega, acrescenta Antoniou.
Para Zumides, são os quilômetros de arame, "bases militares e postos abandonados da ONU - intactos há meio século -" que despertam a curiosidade dos entusiastas da exploração urbana. Segundo ele, o objetivo é evitar o esquecimento, "documentando Nicósia de uma forma diferente. Muitas coisas se sentem ao descobrir um lugar esquecido. Cria-se uma conexão com quem viveu lá", enfatizou.
Aos poucos, ele viu esta modalidade pouco conhecida ganhar popularidade na pequena ilha mediterrânica, sobretudo, devido ao efeito das redes sociais. "As pessoas querem descobrir a face oculta de Nicósia, a história secreta do Chipre", explica.
- Cidade congelada no tempo -
Outro fator que contribuiu para essa tendência foi a reabertura parcial de Varosha, no sudeste da ilha. Esta cidade litorânea foi esvaziada pelo Exército turco e cercada de fortes em 1974.
Desde outubro de 2021, as autoridades locais permitem o acesso a algumas ruas desta cidade-fantasma, apesar da condenação da comunidade internacional.
O YouTuber e explorador urbano Bob Thissen foi um dos que visitaram o local.
"É único. Uma cidade inteira congelada no tempo. Algo nunca visto", disse à AFP esse holandês com 514 mil inscritos em seu canal, afirmando que estava "arriscando sua vida, sua liberdade e sua saúde" para fazer urbex.
"É claro que não fui para onde os soldados (turcos) queriam que eu fosse! Foi fácil escapar da vigilância deles e explorar fora do caminho comum", afirmou.
Durante suas três visitas ao Chipre, Thissen conta também que cruzou os limites da zona de fronteira, monitorada pela Força das Nações Unidas para a Manutenção da Paz no Chipre (Unficyp).
Seu objetivo era explorar um antigo aeroporto de Nicósia, em desuso desde 1974. Para isso, teve de atravessar cabos de ferro, correr um quilômetro "sem ter onde se esconder" e encontrar uma porta já demolida. Tomando cuidado "para não tocar em nada", o explorador conseguiu entrar no terminal abandonado, onde fileiras de cadeiras empoeiradas aguardam em vão pelos viajantes.
"Nunca vi algo igual na Europa", relembra. Uma visita "excepcional" que terminou com "um pouco de adrenalina, porque os soldados da ONU nos procuravam. Nos escondemos até o anoitecer e depois fugimos", contou.
Inspirada pelos vídeos de Thissen, Kim, uma coreana de 28 anos, viajou ao Chipre em março para visitar o aeroporto. A arquiteta sonhava em "entrar na zona de fronteira, porque existe uma" que separa a Coreia do Sul da Coreia do Norte.
"No nosso país não podemos entrar sem correr grandes riscos. Aqui é possível", diz ela.
Para o porta-voz da Unficyp, Aleem Siddique, esse tipo de excursão é "totalmente irresponsável".
"Não é um parque de diversões, é uma zona militar. Há milhares de soldados armados de cada lado da linha" de demarcação.
Um civil pode ser confundido com um soldado e tornar-se uma vítima", disse ele, enfatizando os "47 campos minados ainda ativos".
Mas para Thissen, os avisos da ONU são inúteis. "Se colocarem mais arame farpado, vamos escalá-los", finalizou.
R.Adler--BTB