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Disputa entre Venezuela e Guiana recrudesce com exibição de força militar
“Ao combate, vamos em frente!”, ordena o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, antes da divulgação de imagens de aviões de combate e fragatas militares perto do mar em disputa com a Guiana, uma demonstração de força antes da chegada de um navio de guerra do Reino Unido àquela região, nesta sexta-feira (29).
Fontes da chancelaria da Guiana confirmaram à AFP a chegada do HMS Trent às suas águas, reacendendo a tensão entre os dois países em meio à disputa centenária pelo território de Essequibo, que se intensificou após a descoberta de jazidas de petróleo.
- Mobilização -
A Venezuela mobilizou 5.682 combatentes em seu destacamento “de defesa”, que inclui caças F-16 e Sukhoi russos, navios de guerra, navios de patrulha oceânica, barcos a motor armados com mísseis e veículos anfíbios, segundo Caracas.
Maduro considerou a chegada do Trent “uma provocação e ameaça do Reino Unido à paz e soberania” de seu país. Londres respondeu que as manobras venezuelanas eram “injustificadas e deveriam terminar. Trabalhamos com nossos parceiros na região para evitar uma escalada e monitoramos a situação de perto", disse hoje um porta-voz.
A Guiana, por sua vez, deu sinais claros de que deseja reduzir a tensão. O presidente Irfaan Ali afirmou que os exercícios com os britânicos não pretendem "ser agressivos nem constituir um ato ofensivo".
- Imprudência ou rotina? -
A especialista militar e habitual crítica do governo Rocío San Miguel descreveu a presença militar britânica como “uma imprudência que obriga a Venezuela a responder como tem feito até agora. A escalada militar irá depender dos movimentos desse navio britânico em águas a delimitar”.
O ex-comandante do estado-maior da Força de Defesa da Guiana Gary Best ressaltou que se trata de um tipo de exercício de rotina: “Entendo que a Venezuela o veja como uma provocação, mas, falando da posição da Guiana, não."
"Neste contexto, ganhou outro significado. Não é incomum, tampouco uma ameaça à soberania da Venezuela”, afirmou Best.
Desde o início das tensões, Lula tenta fazer a mediação entre Caracas e Georgetown para evitar uma possível guerra na região.
Para muitos, a presença britânica na região lembra o clima que antecedeu a Guerra das Malvinas em 1982.
- Compromisso de não agressão -
A Venezuela afirma que o Essequibo, uma região de 160.000 km² rica em recursos naturais, faz parte do seu território desde que era colônia da Espanha, e apela ao Acordo de Genebra (assinado em 1966, antes de a Guiana se tornar independente do Reino Unido), que estabelecia as bases para uma solução negociada e anulava um laudo de 1899, que fixou as fronteiras que Georgetown pede que a Corte Internacional de Justiça (CIJ) ratifique.
A tensão entre os dois países se intensificou após a realização de um referendo na Venezuela sobre a soberania do Essequibo, em 3 de dezembro, que despertou o temor de um conflito armado na região.
Maduro e Ali reuniram-se no último dia 14 em São Vicente e Granadinas, onde definiram que seus governos não "usarão a força mutuamente em nenhuma circunstância".
- Demonstração de força -
Gary Best indicou que a mobilização também tem relação com a política interna da Venezuela, uma vez que Maduro tentará a terceira reeleição em 2024: "É uma demonstração de força, uma grandiloquência para manter o fogo aceso”.
O economista Luis Vicente León ressaltou na rede social X (antigo Twitter) que "não se deve confundir a manipulação política do conflito (que rejeitamos) com o dever de proteção do território nacional (que apoiamos)".
Um ator importante são os Estados Unidos, protagonistas das negociações internas para a libertação de presos políticos e para alcançar condições eleitorais para o ano que vem na Venezuela, e que têm interesses petroleiros em ambos os países. Até agora, no entanto, o governo americano se manteve em silêncio sobre a disputa.
D.Schneider--BTB