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Diretora da Human Rights Watch denuncia a 'hipocrisia' de muitos países
Os direitos humanos não são nem "acessórios", nem algo que se possa adequar aos interesses dos países, alerta a chefe da organização Human Right Watch, Tirana Hassan, em entrevista à AFP, na qual criticou a "hipocrisia" dos governos que fazem vista grossa quando lhes convêm.
"O ano de 2023 foi incrivelmente difícil para os direitos humanos. Vimos várias tendências em sua erosão", explica.
"Inclusive nas democracias florescentes temos visto cada vez mais ataques às instituições nas quais confiamos (...) para que os direitos humanos cheguem a todos", acrescenta, referindo-se aos "sinais de alerta" das ameaças aos direitos humanos dos migrantes na Europa e na América do Norte, particularmente no México, ou aos direitos das mulheres.
"A Índia é um excelente exemplo", diz, lamentando que neste país, às vezes descrito como "a maior democracia do mundo", haja uma "repressão considerável das minorias religiosas" e que o governo atue contra seus críticos.
O ano de 2023 também testemunhou "um aumento da repressão transnacional", explica, acusando China e Ruanda de atacarem seus oponentes até mesmo fora de suas fronteiras.
Em sua opinião, este foi o resultado de um estímulo tácito dado pela falta de crítica dos governos do mundo.
"O que vimos em 2023 é que os governos fazem cada vez mais vista grossa às violações, da Tailândia ao Vietnã ou à Tunísia, com a finalidade de criar novas relações. Isto é o que chamamos de diplomacia transacional", aponta.
- "Dupla moral" -
"Quando os ocidentais fazem vista grossa às violações dos direitos humanos, seja em nível nacional ou internacional, só para promover sua agenda própria, isto nada mais é que hipocrisia", denuncia.
"Esta seletividade, esta dupla moral, foi constatada nos países do Sul e tem um impacto deletério nas instituições internacionais que protegem os direitos humanos", acrescenta.
Inclusive "é utilizada como arma por certos atores como China e Rússia, que usam esta dupla moral para dizer, 'Viram, estas instituições não são para nós, os direitos humanos não se aplicam a todo mundo'. E isso não é verdade", prossegue.
Assim, "se há uma lição a ser aprendida de 2023 é que os direitos humanos só podem sobreviver se há uma aplicação igualitária de sua autoridade moral".
"Os direitos humanos não são acessórios", afirma, são "normas que definem fundamentalmente nossa humanidade moral".
Apesar destas ameaças ao sistema internacional dos direitos humanos e das violações em massa dos direitos da população civil em Gaza e na Ucrânia, Hassan não abre mão de um futuro melhor.
"Em 2024 não deveríamos fugir das atrocidades que estão ocorrendo no mundo e dos desafios que temos pela frente", aponta.
"É um ano em que devemos esperar que as organizações de direitos humanos, os jornalistas e sobretudo os governos, que têm obrigações, façam tudo o que estiver em suas mãos para manter o rumo e proteger os direitos humanos", conclui.
J.Fankhauser--BTB