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Estado de emergência no território francês da Nova Caledônia após 4 mortes em distúrbios
Paris declarou estado de emergência, nesta quarta-feira (15), no território francês da Nova Caledônia, onde tumultos contra uma reforma do censo eleitoral deixaram quatro mortos, incluindo um gendarme, e centenas de feridos.
A “violência é intolerável e será objeto de uma resposta incansável para garantir a restauração da ordem”, afirmou ao Palácio do Eliseu, ao anunciar a decisão do presidente Emmanuel Macron.
O regime de exceção, estabelecido pela França em oito ocasiões desde a sua criação, em 1955, entra em vigor às 5h de quinta-feira no horário local (15h de Brasília nesta quarta-feira), neste território colonizado por franceses em meados do século XIX.
"O Estado terá maiores poderes para manter a ordem" e poderá "impor proibições de trânsito, prisões domiciliárias e buscas", disse a porta-voz do governo, Prisca Thévenot. Os protestos começaram na segunda-feira, quando a Assembleia Nacional, a Câmara dos deputados francesa, começou a debater a reforma do censo eleitoral.
Atualmente, apenas os eleitores recenseados em 1998 e seus descendentes podem participar nas eleições regionais deste arquipélago do Oceano Pacífico com 270 mil habitantes.
Os independentistas consideram que a expansão do censo eleitoral, permitindo que aqueles que se estabeleceram mais recentemente votem, levará à redução da influência proporcional do povo Kanak, os habitantes originais, que têm amplos poderes transferidos por Paris, nas instituições locais.
Depois de uma primeira noite de graves distúrbios na segunda-feira, com incêndios criminosos, saques e disparos contra a polícia, as autoridades do território impuseram em vão um toque de recolher obrigatório, proibiram reuniões públicas e fecharam escolas e o aeroporto principal.
No entanto, "graves problemas de ordem pública" continuaram na noite de terça-feira com "incêndios e saques a empresas, infraestruturas e estabelecimentos públicos", admitiu o Alto Comissário – representante do Estado francês – Louis Le Franc.
"Deixo vocês imaginarem o que aconteceria se as milícias começassem a atirar em pessoas armadas", alertou.
As autoridades francesas indicaram que quatro pessoas morreram, incluindo um policial de 22 anos que foi baleado, e que há "centenas" de feridos, incluindo "cem" agentes das forças de segurança.
- "Solução política global" -
Os protestos contra a reforma não impediram o procedimento parlamentar em Paris. Na madrugada desta quarta-feira, os deputados aprovaram o texto, como já tinham feito os senadores em abril.
Mas, por se tratar de uma reforma constitucional, também deverá ser submetida à votação conjunta das duas câmaras e obter mais de 60% de apoio para ser aprovada definitivamente. Macron disse que convocaria esta sessão "antes do final de junho", a menos que os apoiadores da independência da Nova Caledônia e os favoráveis à permanência da França aprovem uma reforma alternativa.
O primeiro-ministro francês, Gabriel Attal, afirmou, nesta quarta-feira, que irá propor "nas próximas horas" uma data para ambas as partes para uma reunião em Paris, com o objetivo de "construir" uma "solução política global".
Em uma declaração conjunta, os principais partidos pró-independência e os leais à França pediram "calma" à população, "apesar da situação insurrecional".
Localizado cerca de 1.200 quilômetros a leste da costa da Austrália, este arquipélago é um dos muitos territórios ultramarinos que a França tem espalhados no Pacífico, no Oceano Índico e no Caribe.
Graças ao acordo de Noumea de 1998, Paris delegou mais poder político à Nova Caledônia e até permitiu a realização de três referendos, todos decididos contra a independência.
Este pacto, alcançado uma década depois dos acordos de Matignon que puseram fim a uma década conflituosa nos anos 1980, também congelou o censo para as eleições provinciais neste território, em que quase 20% dos eleitores não podem votar.
Considerando a disposição "absurda" e contrária aos princípios democráticos, o governo francês propôs uma reforma constitucional para incluir pessoas estabelecidas na Nova Caledônia há pelo menos dez anos.
Para a oposição de esquerda francesa, Macron é responsável pela situação atual, ao querer impor uma reforma que mina o acordo de Nouméa e à qual o movimento independentista Kanak se opõe.
"Presidente Macron, estenda a mão! Faça gestos simples que salvem vidas e a nossa honra como povo francês aos olhos do mundo!", apelou o líder da esquerda radical Jean-Luc Mélenchon.
O.Bulka--BTB