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Ataque dos EUA no Caribe marca mudança na luta contra o narcotráfico
O ataque dos Estados Unidos em águas do Caribe contra uma suposta lancha de narcotraficantes representa uma mudança fundamental na estratégia antinarcóticos, que passa de uma competência policial para uma campanha militar.
O vídeo publicado por Trump nas redes sociais na terça-feira (2) mostrou uma lancha rápida com vários motores e pessoas a bordo.
Em vez de ser detida e abordada, a embarcação explode e é engolida pelas chamas.
O presidente dos Estados Unidos disse que 11 membros do grupo Tren de Aragua morreram no ataque, que deveria "servir de aviso a qualquer pessoa que sequer pense em introduzir drogas nos Estados Unidos".
Ryan Berg, diretor do Programa das Américas no Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, afirmou que o ataque "demostra uma mudança nas regras de engajamento".
"Não há mais abordagens de embarcações pela Guarda Costeira dos EUA: há um enfoque muito mais parecido com a forma como os Estados Unidos lidam com piratas na região do Golfo, ou com terroristas no Sahel", explicou.
Em 2008, os Estados Unidos começaram a atacar ativamente os piratas somalis no Golfo de Áden.
O primeiro grande confronto nessas águas ocorreu em abril de 2009, durante a presidência de Barack Obama, quando uma equipe das forças especiais dos fuzileiros navais atacou um navio sequestrado pelos piratas e matou três indivíduos.
"Efeito altamente dissuasório" -
Os Estados Unidos designaram o Tren de Aragua da Venezuela, o Cartel de Sinaloa do México e várias outras organizações de narcotráfico como grupos terroristas no início deste ano.
O ataque à embarcação ocorre em um momento de crescentes tensões entre os Estados Unidos e a Venezuela pela mobilização de navios de guerra americanos na região do Caribe, que, segundo Washington, visa combater o tráfico, mas que Caracas considera uma ameaça.
Os Estados Unidos alegam que o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, lidera um cartel de tráfico de cocaína e recentemente dobrou sua recompensa para 50 milhões de dólares (R$ 270 milhões) por sua captura para enfrentar acusações de narcotráfico.
Maduro, por sua vez, acusou Trump de tentar provocar uma mudança de regime e lançou uma campanha de mobilização nacional.
Ao ser questionado sobre o potencial de escalada com a Venezuela como resultado do ataque, Berg disse que "é pouco provável que Maduro diga muito, dado que fazê-lo confirmaria essencialmente a afirmação do governo de que ele é um narcotraficante e chefe de um cartel".
O ministro de Comunicação venezuelano, Freddy Ñáñez, assegurou nas redes sociais que o vídeo publicado por Trump "é muito provável que tenha sido criado por meio de inteligência artificial (IA)".
"Com a mudança para ataques militares em vez da aplicação tradicional da lei para combater o narcotráfico na região, a Casa Branca busca enviar uma mensagem contundente", explicou Gustavo Flores-Macias, decano da Escola de Políticas Públicas da Universidade de Maryland.
Essa mensagem visa "não apenas dissuadir os narcotraficantes, mas também serve como demonstração de força para alertar o governo de Nicolás Maduro de que os Estados Unidos estão considerando uma ação militar na Venezuela", disse.
A mobilização de diversos navios da Marinha dos EUA "poderia interromper as rotas de tráfico do sul do Caribe por algum tempo, devido à sua escala e tamanho".
"A curto prazo, [o ataque] provavelmente terá um efeito altamente dissuasório", ressaltou.
N.Fournier--BTB