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Irã descarta negociações com EUA se ameaças não cessarem
O Irã rejeitou, nesta quarta-feira (28), o início de negociações com o governo dos Estados Unidos enquanto prosseguirem as ameaças, depois que o presidente Donald Trump não descartou a possibilidade de uma intervenção militar diante da violenta repressão aos protestos na República Islâmica.
Após Washington deslocar um porta-aviões em direção ao Oriente Médio, funcionários de alto escalão do governo iraniano iniciaram contatos diplomáticos discretos com países árabes influentes em busca de apoio.
Um grupo de defesa dos direitos humanos afirmou ter confirmado mais de 6.200 mortes, a maioria de manifestantes assassinados pelas forças de segurança, em uma onda de protestos que abalou a liderança clerical iraniana entre o final de dezembro e o início de janeiro.
Ativistas apontam que o número real pode ser muito maior. O corte da internet continua dificultando os esforços para confirmar informações sobre o nível da repressão.
Trump não descartou uma ação militar contra o Irã em resposta à repressão, enquanto parece manter todas as opções sobre a mesa. O Departamento de Segurança Interna (DHS) anunciou a deportação de três ex-integrantes da Guarda Revolucionária do Irã que haviam entrado ilegalmente nos Estados Unidos.
Analistas apontam que as opções de Washington incluem ataques contra instalações militares ou golpes seletivos contra a liderança do aiatolá Ali Khamenei, em uma tentativa em larga escala de derrubar o sistema que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, que depôs o governo do xá Reza Pahlavi.
O ministro das Relações Exteriores da Turquia, Hakan Fidan, aconselhou nesta quarta-feira o governo dos Estados Unidos a dialogar com o Irã, por considerar que Teerã está disposto a negociar, começando pela questão nuclear, em entrevista ao canal Al Jazeera.
- "Reduzir a escalada" -
O ministro iraniano das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, advertiu nesta quarta-feira que não haverá negociações entre Washington e Teerã se o governo dos Estados Unidos prosseguir com as ameaças.
"Conduzir a diplomacia por meio de ameaças militares não pode ser eficaz nem útil. Se querem que as negociações aconteçam, devem cessar as ameaças, demandas excessivas e questões ilógicas apresentadas", disse Araghchi.
Araghchi afirmou que não teve contato recente com o enviado dos Estados Unidos para o Oriente Médio, Steve Witkoff, e acrescentou que "o Irã não buscou negociações".
O príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman, disse em uma conversa telefônica na terça-feira com o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, que a monarquia do Golfo não permitirá que ataques contra a República Islâmica sejam executados a partir de seu território.
O secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, Ali Larijani, conversou com o primeiro-ministro do Catar, xeque Mohammed bin Abdulrahman Al Thani, que também é ministro das Relações Exteriores, informaram os dois países.
O xeque Mohammed ressaltou o apoio do Catar a "todos os esforços voltados para reduzir a escalada e alcançar soluções pacíficas, para reforçar a segurança e a estabilidade na região", informou o Ministério das Relações Exteriores catari.
O ministro das Relações Exteriores do Egito, Badr Abdelatty, conversou por telefone, de modo separado, com Araghchi e Witkoff, segundo o governo do Cairo.
Paralelamente, novos outdoors instalados em Teerã mostram o Irã atacando um porta-aviões americano e frases de Khamenei denunciando Washington, segundo correspondentes da AFP.
- "Novas dimensões da repressão" -
Em um balanço atualizado, a Agência de Notícias de Ativistas pelos Direitos Humanos (HRANA), com sede nos Estados Unidos, afirmou ter confirmado que 6.221 pessoas morreram nos protestos no Irã, incluindo 5.856 manifestantes, 100 menores de idade, 214 membros das forças de segurança e 49 transeuntes.
Mas o grupo, que tem uma ampla rede de fontes no território iraniano e acompanha as manifestações desde o início, acrescentou que ainda investiga outras 17.091 possíveis mortes. Pelo menos 42.324 pessoas foram detidas, acrescentou a agência.
A HRANA alertou que a repressão continua, com a presença das forças de segurança em hospitais para procurar manifestantes feridos, médicos que ajudaram pessoas detidas e obtendo "confissões forçadas" que são exibidas pela televisão estatal.
Os acontecimentos "evidenciam novas dimensões da contínua repressão de segurança após os protestos".
Além disso, o Irã executou nesta quarta-feira um homem detido em abril de 2025, acusado de espionagem para o serviço de inteligência israelense Mossad, informou o Poder Judiciário.
Grupos de direitos humanos afirmam que 12 pessoas foram executadas no país por acusações similares em decorrência da guerra de 12 dias com Israel em junho.
F.Müller--BTB