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Ucrânia não está perdendo a guerra, diz Zelensky à AFP
O presidente ucraniano, Volodimir Zelensky, disse à AFP nesta sexta-feira (20) que seu país não está perdendo a guerra contra a Rússia, que Kiev retomou centenas de quilômetros quadrados em uma nova contraofensiva e que a Europa deveria posicionar tropas diretamente na linha de frente em caso de cessar-fogo.
O líder ucraniano conversou com a AFP em uma entrevista exclusiva antes do quarto aniversário da invasão russa, com o desfecho da guerra — ou o formato de qualquer acordo para encerrar os combates — ainda em aberto.
Sua avaliação do conflito prolongado ocorre enquanto o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pressiona a Ucrânia a aceitar um acordo com a Rússia e durante um dos invernos mais duros para a população exausta e as forças armadas sobrecarregadas da Ucrânia.
"Não podem dizer que estamos perdendo a guerra. Honestamente, de forma alguma a estamos perdendo, definitivamente. A pergunta é se a venceremos", disse Zelensky aos jornalistas da AFP no palácio presidencial na capital ucraniana.
"Sim, essa é a pergunta, mas é uma pergunta muito custosa", acrescentou.
A guerra mais letal da Europa desde a Segunda Guerra Mundial — que começou quando Vladimir Putin ordenou que tropas russas cruzassem a fronteira ucraniana em 24 de fevereiro de 2022 — já deixou dezenas de milhares de civis e centenas de milhares de militares mortos de ambos os lados.
As forças russas neste inverno intensificaram dramaticamente uma campanha de ataques sistemáticos contra instalações de energia da Ucrânia, ofensivas que deixaram milhões de pessoas no frio e no escuro por semanas, em temperaturas congelantes.
E agora Washington e Moscou estão pressionando Kiev a ceder a disputada região oriental do Donbass ao Kremlin em qualquer acordo para encerrar a guerra de quatro anos.
"Tanto os americanos quanto os russos dizem que 'se querem que a guerra termine amanhã, saiam do Donbass'", afirmou Zelensky sobre a região, rica em minerais, que a Rússia reivindica como sua.
- Ucrânia avança no sul -
As negociações mediadas pelos Estados Unidos em Genebra no início desta semana não conseguiram avançar na questão-chave da divisão territorial em qualquer acordo para pôr fim ao conflito.
Moscou prometeu tomar todo o Donbass à força se Kiev não se retirar do território, enquanto Putin não dá sinais de abertura em relação às suas exigências rígidas para encerrar a invasão de quatro anos.
A Ucrânia, no entanto, ainda controla cerca de um quinto da região de Donetsk, altamente industrializada e fortificada, enquanto a Rússia tomou basicamente toda a região de Lugansk. As duas juntas formam o Donbass.
A Ucrânia tem reiteradamente descartado retirar suas tropas da região, dizendo que tal medida apenas encorajaria a Rússia.
A exigência de ceder território à Rússia surge no momento em que as forças de Kiev estão, segundo Zelensky, ganhando terreno em contraofensivas ao longo da linha de frente sul.
"Não entrarei em muitos detalhes", disse Zelensky sobre os avanços, "mas hoje posso parabenizar, antes de tudo, nosso Exército, todas as forças de defesa, porque até hoje 300 quilômetros [quadrados] foram libertados."
Ele não especificou em que período isso ocorreu. A AFP não conseguiu verificar a afirmação.
Blogueiros militares sugeriram que alguns desses ganhos podem ter sido facilitados por apagões generalizados dos terminais de internet Starlink ao longo da frente ucraniana, depois que o proprietário da rede, Elon Musk, os desativou após um pedido de Kiev.
Zelensky disse que Kiev estava tirando proveito da situação, mas admitiu à AFP que as forças ucranianas também sofreram interrupções devido aos cortes.
"Há problemas, há desafios", afirmou Zelensky, mas os reveses enfrentados pelo lado russo são "muito mais sérios".
Além de exigir concessões territoriais, os Estados Unidos pressionam a Ucrânia a realizar eleições presidenciais como parte de seu amplo plano para um acordo de paz.
Zelensky, que defende a realização de um pleito somente ao fim da guerra, afirmou que a Rússia pressiona por uma eleição rápida porque quer removê-lo do poder.
"Vamos ser honestos: os russos só querem me substituir", declarou Zelensky.
- Garantias de segurança -
"Ninguém quer eleições durante uma guerra. Todos têm medo de seu efeito destrutivo", acrescentou.
O presidente ucraniano, ao longo da invasão, descartou a possibilidade de realizar eleições, dado que milhões de ucranianos foram forçados a deixar o país por causa dos combates ou vivem em território ocupado.
Ele citou os obstáculos para realizar qualquer votação com os combates em andamento, particularmente em cidades que estão sendo bombardeadas pela Rússia.
Zelensky também disse que ainda não decidiu se disputará uma futura eleição.
O ex-comediante de 48 anos, que conquistou uma vitória esmagadora nas eleições de 2019, afirmou que uma votação só pode ser realizada na Ucrânia se seus aliados oferecerem garantias de segurança robustas para dissuadir ataques russos.
E ele disse à AFP nesta sexta-feira que quer tropas estrangeiras — destinadas a serem enviadas à Ucrânia em caso de interrupção dos combates — posicionadas próximas à linha de frente.
"Gostaríamos de ver o contingente mais perto da linha de frente. Claro, ninguém quer estar na primeira linha, e claro, os ucranianos gostariam que nossos parceiros estivessem conosco na linha de frente", concluiu Zelensky.
F.Pavlenko--BTB