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Os possíveis cenários na cúpula iraniana após a morte de Khamenei
A morte do líder supremo Ali Khamenei e a campanha militar de Israel e dos Estados Unidos obriga o poder iraniano a repensar por completo sua estratégia se quiser sobreviver, diante de uma oposição desunida e uma população que, por enquanto, não se atreve a sair às ruas.
Ao anunciar a ofensiva, no sábado (28), o presidente americano, Donald Trump, incentivou a população iraniana a tomar o poder assim que a campanha militar terminar.
Foi um chamado muito significativo um mês e meio depois das manifestações populares multitudinárias contra a república islâmica, que foram esmagadas de forma sangrenta pelo regime.
Após a morte de Khamenei, no sábado, o Irã agora está nas mãos de um triunvirato encarregado da transição.
É composto pelo presidente, Masoud Pezeshkian, pelo chefe do poder judiciário, Gholamhosein Mohseni Ejei, e Alireza Arafi, líder religioso membro da Assembleia de Especialistas e do Conselho da Guarda Revolucionária.
- Por enquanto, a continuidade -
Neste momento, "o país parece contido", explica à AFP Pierre Razoux, da Federação Mediterrânea de Estudos Estratégicos (FMES).
Segundo explica, com o fechamento das universidades, o corte da internet e a vigilância nas ruas, fez-se de "tudo para evitar as manifestações".
E embora o aparato repressivo, composto entre outros pelos 600.000 efetivos da milícia pró-regime Basij, continue atuante, "é improvável que as pessoas voltem a sair às ruas" para protestar contra a república islâmica.
Razoux, diretor de estudos na FMES, chama atenção para o fato de que o sistema iraniano conta com procedimentos para gerenciar a sucessão do líder supremo, pelo que "sua eliminação não significa o fim de um regime com vários centros".
Por isso, este analista prevê como cenário principal "a continuidade do regime com novas regras do jogo, talvez em detrimento do clero (xiita), mas com as mesmas pessoas".
"Da eleição do novo líder supremo dependerá toda a orientação do regime", destaca o pesquisador Théo Nencini, da escola de ciência política Sciences Po em Grenoble, na França.
O caso iraniano faz pensar no da Venezuela. Após a captura do presidente Nicolás Maduro, Trump apostou em sua vice, Delcy Rodríguez, que, como presidente interina, tem conseguido manter de pé o regime chavista, fazendo concessões importantes com o petróleo, mas também com a anistia de presos políticos.
Nesta linha, a socióloga Azadeh Kian se questionou na rádio Franceinfo se Trump tentará mais adiante "se entender com uma parte mais moderada do regime" iraniano.
A morte de Khamenei, no poder desde 1989, pode, em qualquer caso, "propiciar rivalidades importantes nos círculos do poder, entre a Guarda Revolucionária e os civis. Mas por enquanto, trabalham todos juntos para manter o sistema de pé", afirmou a socióloga.
- A hora da Guarda Revolucionária?
Razoux reforça que "a alternativa é a tomada de poder pela Guarda Revolucionária", exército de elite do regime, encarregado de suas operações no exterior.
E embora seu chefe, Mohamad Pakpour, tenha morrido nos bombardeios de sábado, a Guarda é uma força muito bem organizada, que controla setores inteiros da economia iraniana.
"Na realidade, o reequilíbrio do poder em benefício da Guarda Revolucionária já vinha acontecendo, de forma progressiva, há anos", avalia Théo Nencini.
"Uma possibilidade", aponta, "é que haja uma transição para um regime mais militarizado, sob sua liderança. Um regime militar mais clássico, sem a lógica religiosa xiita atual. Embora me custe acreditar que prescindam do verniz religioso".
- O exército regular
Com 350.000 homens, segundo a revista especializada Military Balance 2026, o exército regular iraniano "não tem peso político atualmente, mas pode ter um papel no futuro se os militares decidirem tomar uma direção política diferente daquela da Guarda Revolucionária", comenta Nencini.
Pierre Razoux acrescenta que, diante de uma eventual guinada política pelo regime, os militares terão que "demonstrar que desempenharam seu papel e cumpriram sua missão" de defender o país.
O exército também poderia apoiar outro nome.
"Mas quem? Não há figura política confiável que ofereça uma alternativa" entre os opositores, assegura Théo Nencini, da Sciences Po Grenoble.
- Oposição desunida
A oposição no Irã está reprimida e, no caso de muitas figuras de destaque, na prisão, como a ganhadora do Nobel da Paz de 2023, Narges Mohammadi.
O filho do último xá do Irã, Reza Pahlavi, "está recebendo projeção na mídia ocidental" e parece desfrutar de uma popularidade crescente, afirma Nencini, mas sua credibilidade real junto à maioria da população iraniana é uma incógnita.
Azadeh Kian acredita haver "um leque de opositores no Irã que podem agir", e aponta para a emergência previsível de reivindicações étnicas no Curdistão iraniano e no Baluchistão, no sudeste do país.
Mas para ter peso, tais minorias deveriam criar "uma coalizão".
E estes grupos "não aceitam se submeter ao poder do filho do xá do Irã", que viveu a maior parte da vida nos Estados Unidos e "não tem as estruturas, nem as instituições necessárias para chegar ao poder".
O.Lorenz--BTB