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Bukele mantém dezenas de 'presos políticos' em El Salvador, denuncia ONG
O presidente salvadorenho, Nayib Bukele, mantém dezenas de críticos ao seu governo como "presos políticos", o que não acontecia em El Salvador desde a guerra civil que terminou há três décadas, uma situação que o equipara a Venezuela e Nicarágua, denunciou uma ONG nesta quinta-feira (5).
Entre as 86 pessoas detidas está a advogada Ruth López, chefe da unidade anticorrupção da Cristosal, uma reconhecida organização humanitária que apresentou na Guatemala um informe sobre "perseguição política" em El Salvador.
"Pela primeira vez desde os acordos de paz (1992), do conflito armado, podemos falar que há presos políticos em El Salvador", assegurou René Valiente, diretor de investigações da Cristosal, durante uma coletiva de imprensa.
A maioria, segundo a organização, é de defensores dos direitos humanos críticos da guerra anti-gangues de Bukele, jornalistas, agentes da Justiça, sindicalistas e ambientalistas.
Bukele, que diz não se importar em ser chamado de "ditador", governa sob um estado de exceção. A criminalidade foi reduzida a mínimos históricos, segundo dados oficiais. Cerca de 91 mil pessoas foram presas sem ordem judicial, sob a acusação de integrarem ou serem cúmplices de gangues.
Mas, segundo a Cristosal, que em julho passado se mudou de El Salvador para a Guatemala alegando sofrer perseguição de Bukele, há milhares de inocentes presos e graves violações dos direitos humanos.
"No fundo do tão famoso modelo Bukele há um regime como tantos outros, uma ditadura que mata, que tortura, que rouba e que persegue", ressaltou, por sua vez, o diretor da Cristosal, Noah Bullock.
- "Medo de erguer a voz" -
Segundo o informe da ONG, os "casos de perseguição política" chegam a pelo menos 245 - entre eles, os presos mencionados -, mas poderiam ser muitos mais.
A ONG destacou que a perseguição "se consolidou como um mecanismo de controle autoritário". Sete pessoas foram condenadas.
Foi ativada, acrescentou, uma estratégia de "criminalização penal" como "mecanismo de repressão", especialmente desde 2021, quando o governo tomou o controle das instituições judiciais, acrescentou o informe.
As intimidações incluem ameaças, perseguições, estigmatização pública, pressão direta, ações judiciais não penais e o "uso sistemático da prisão preventiva como forma de castigo antecipado", detalhou.
São "padrões similares aos observados em países como Nicarágua e Venezuela", onde centenas de dissidentes foram presos por motivações políticas, destacou o informe.
Ruth López, uma advogada de renome, considerada "presa de consciência" pela Anistia Internacional, foi detida em 18 de maio de 2025, após ser acusada de peculato e enriquecimento ilícito pelo Ministério Público, alinhado ao governo.
"Em El Salvador vive-se um estado permanente de medo. As pessoas têm medo de erguer a voz, de defender os outros", acrescentou Valiente.
Nesta quinta-feira, a Anistia Internacional manifestou preocupação com o ativista salvadorenho Fidel Zavala, detido em 25 de fevereiro de 2025, quando assessorava uma comunidade em risco de desalojamento por um conflito de terras.
Para esta ONG, seu caso mostra a "criminalização" da defesa dos direitos humanos e o abuso da prisão preventiva.
O advogado constitucionalista Enrique Anaya, assim como um ambientalista e um líder comunitário também estão detidos há um ano.
A existência de presos políticos representa um grande retrocesso, pois casos assim não eram vistos desde a guerra civil que sacudiu El Salvador entre 1980 e 1992, destacou a ONG Cristosal.
D.Schneider--BTB