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Os desafios de Keiko Fujimori na Presidência do Peru
Criminalidade em alta, dez anos de instabilidade política e uma economia com desempenho abaixo de seu potencial: esses são os principais desafios que a direitista Keiko Fujimori enfrentará para governar o Peru no mandato 2026-2031.
Após três fracassos consecutivos, a filha do ex-presidente Alberto Fujimori finalmente chegará à Presidência após derrotar seu adversário de esquerda, Roberto Sánchez, por menos de um ponto de diferença.
- Divisão e antifujimorismo -
O primeiro desafio será levar adiante um país dividido, após vencer as eleições por menos de 50 mil votos de diferença.
Sua vitória apertada marca a volta do fujimorismo ao poder. O legado de seu falecido pai, que governou o país entre 1990 e 2000, divide profundamente os peruanos há décadas.
"Sabemos que o país está dividido. Temos a grande responsabilidade de ouvir ambos os lados", disse Keiko na segunda-feira (29), após a conclusão da apuração.
Seu adversário questiona a legitimidade dos resultados.
E o forte sentimento antifujimorista que persiste entre os peruanos poderia gerar "resistência e protesto" e complicar a lua de mel com o novo governo, afirma o cientista político Eduardo Dargent, professor da Pontifícia Universidade Católica do Peru.
- Governabilidade -
Com esta divisão como pano de fundo, o Peru teve oito presidentes desde 2016, vários deles destituídos pelo Congresso ou que renunciaram antes de ter o mesmo destino. Um deles, inclusive, durou apenas cinco dias.
Isto se deve ao fato de que o Peru, embora em termos formais tenha um sistema presidencialista, na prática tem funcionado como um parlamentarismo: o Congresso pode destituir um presidente por "incapacidade moral permanente", uma definição vaga que fica a critério dos legisladores.
Para não ter o mesmo destino, Fujimori deverá construir alianças no Parlamento, onde seu partido, o Força Popular, não tem maioria própria.
"Seu maior desafio é mudar o estilo, construir o Executivo com capacidade de diálogo", tanto para articular alianças quanto para evitar conflitos sociais, disse Dargent.
As sucessivas crises políticas geraram desânimo entre muitos peruanos.
"Eu votei em branco, não tenho esperanças no governo dela. Vamos torcer para que ela não afunde o país", disse à AFP Manuel Coronel, de 48 anos, taxista em Lima.
- Criminalidade -
A governabilidade será fundamental para aplicar suas políticas.
O crime organizado e a insegurança são a maior preocupação dos peruanos.
Em 2025, houve 26.500 denúncias de extorsão, nove vezes mais do que há cinco anos.
Este crime afeta especialmente o transporte público em Lima, onde o Ministério Público contabiliza, desde agosto de 2024, mais de 150 mortes vinculadas à extorsão, em sua maioria de motoristas de ônibus, mas também passageiros.
Assim como seu pai fez para derrotar as guerrilhas, Keiko prometeu "mão firme" contra estes crimes que ela classifica como "terrorismo urbano".
Ela propôs, ainda, expulsar migrantes, militarizar as ruas e as prisões.
Mas conseguir respostas rápidas e eficazes não será fácil, apontou Ricardo Valdés, diretor do Observatório do Crime e da Violência.
O país tem "urgência" por resultados "e isso vai ser muito complexo porque suas medidas exigem tempo", disse o especialista à AFP.
A futura presidente precisa de um começo "que faça a diferença", para demonstrar que há um governo capaz de resolver problemas, sustentou o analista Augusto Alvarez Rodrich.
"Se conseguir restabelecer a segurança, terá construído um capital político tão importante quanto o que seu pai conquistou ao derrotar a hiperinflação e o terrorismo", avaliou.
- Crescimento econômico e pobreza -
Fujimori encontrará uma economia que, em 2025, cresceu 3,4% e teve a inflação mais baixa da América Latina (1,5%).
Receberá "um país com estabilidade macroeconômica" mas com "uma forte brecha entre a macro e a microeconomia", destacou o analista Jorge González Izquierdo.
A valorização de metais como ouro, prata e cobre no mercado internacional contribuíram para o crescimento do PIB.
Mas o país não consegue se beneficiar completamente devido à alta informalidade e à instabilidade institucional, afirmam analistas.
No Peru, o garimpo ilegal disparou e sete em cada dez trabalhadores são informais, segundo números oficiais.
Além disso, o governo enfrenta, este ano, um fenômeno El Niño intensificado, que se estenderá até março e pode afetar a agricultura, a pesca, a infraestrutura e a atividade econômica em geral.
Para reduzir a pobreza, que atinge 27% da população, o país deveria crescer a uma taxa anual de mais de 6%, alertou González Izquierdo.
Fujimori prometeu se concentrar na promoção de investimentos, na geração de empregos e no desbloqueio de grandes projetos de infraestrutura.
"Quando há investimento, há emprego; quando há emprego, há renda, e se começa a sair da pobreza", ressaltou o cientista político Eduardo Dargent.
cm-ljc/mel/mar/rm/mvv
P.Anderson--BTB