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Autoridades pedem calma em Ceuta quase um mês após entrada em massa de migrantes
Os governos da Espanha e de Ceuta pediram calma, nesta quinta-feira (27), diante da crescente tensão no enclave espanhol, quase um mês após a entrada em massa de migrantes procedentes do Marrocos, depois de confrontos que incluíram uma agressão contra militares.
A tensão aumentou desde a entrada, em 30 e 31 de julho, de mais de 70.000 migrantes no pequeno território espanhol no norte da África, em meio a protestos cada vez maiores de moradores de Ceuta, que denunciam problemas de segurança e higiene e acusam o governo central de abandono.
Horas depois da entrada em massa, a maioria dos migrantes retornou ao Marrocos, mas milhares permaneceram no território — entre 3.500 e 7.000, segundo o governo, e pelo menos 10.000, de acordo com as autoridades de Ceuta —, com dificuldades para ter acesso a alimentos, água, abrigo e instalações sanitárias. Muitos dormem em abrigos improvisados e praias ou circulam pelas ruas.
Um protesto de milhares de moradores de Ceuta na noite de quarta-feira terminou em conflito quando a polícia lançou gás lacrimogêneo para impedir confrontos com migrantes acampados em uma praia, segundo a imprensa espanhola.
Na madrugada desta quinta-feira, um veículo militar com quatro soldados "sofreu uma emboscada" de cerca de 70 migrantes, que atiraram pedras e outros objetos, obrigando os militares a fugir e pedir ajuda à polícia, informou à AFP um porta-voz da Polícia Nacional em Ceuta.
Os policiais conseguiram "deter 12" migrantes, todos "marroquinos", acrescentou o porta-voz, que afirmou desconhecer "o objetivo" da ação. Um militar sofreu ferimentos leves após ser atingido por uma pedra.
- "Mensagem de calma" -
"A tensão na cidade de Ceuta é muito elevada" porque "não há respostas" do governo central e os moradores sentem-se "abandonados", afirmou nesta quinta-feira à rádio Cadena Ser Kissy Chandiramani, secretária da Fazenda do governo da cidade autônoma.
Ainda assim, Chandiramani fez um apelo "à não violência", afirmando que "é possível sair às ruas" para protestar, mas "sempre em um ambiente de tranquilidade, porque esse clima de tensão não nos leva a lugar algum".
No Congresso, em Madri, o ministro da Justiça, Félix Bolaños, enviou uma "mensagem de calma, de confiança no Estado (...) aos cidadãos de Ceuta".
"Estamos trabalhando sem descanso até restabelecer a normalidade na cidade autônoma", declarou.
Diante das críticas de parte da população e das autoridades de Ceuta de que o governo central reagiu com muita lentidão, o Executivo do primeiro-ministro Pedro Sánchez adotou medidas nos últimos dias para oferecer abrigo aos migrantes e agilizar seu retorno ao Marrocos.
Para acelerar o processo, o governo estabeleceu um "comando único" para Ceuta, sob responsabilidade do ministro da Política Territorial, Ángel Víctor Torres. Ele pediu "compreensão" aos moradores e lembrou que as autoridades precisam identificar cada migrante para determinar se tem direito a asilo ou se pode ser devolvido.
"Entendo que haja pessoas que digam que os migrantes devem ser devolvidos imediatamente, mas temos que fazer isso respeitando (...) a lei", advertiu Torres na quarta-feira, durante uma visita a Ceuta, um pequeno enclave de 18,5 km² e 80.000 habitantes.
- "Invasão" -
O Ministério do Interior anunciou nesta quinta-feira o envio de mais funcionários para identificar os migrantes.
Os milhares de menores desacompanhados devem receber proteção especial, e o governo aprovou nesta quinta-feira a transferência de 25 milhões de euros (cerca de 150 milhões de reais) adicionais para acolhê-los.
"As devoluções de meninos e meninas (...) precisam ocorrer com a garantia dos direitos humanos (...) e de acordo com um procedimento jurídico muito rigoroso", lembrou a ministra da Juventude e da Infância, Sira Rego.
A situação em Ceuta desencadeou uma disputa política entre o governo de esquerda e a oposição de direita e extrema direita, que exigem a devolução de todos os migrantes, sem exceção.
"Os moradores de Ceuta estão há um mês suportando sozinhos algo que não é responsabilidade deles. Nada foi feito para evitar a invasão (...) e nada está sendo feito para conter a crise de ordem pública, que piora a cada dia", afirmou nesta quinta-feira na rede social X Alberto Núñez Feijóo, líder do Partido Popular (PP, direita).
S.Keller--BTB