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Picanha, prato principal da direita para frear a reeleição de Lula
Um filé suculento está no caminho do presidente Lula na disputa pela reeleição. Em sua última campanha, o então candidato garantiu que poria "picanha" na mesa do "povo", mas o preço deste corte nobre de carne bovina aumentou e a promessa voltou como um bumerangue eleitoral.
Seu principal adversário nas eleições de outubro, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, se encarrega de lembrá-lo em seus atos de campanha.
"Já que o Lula não trouxe picanha, eu trouxe. Aqui dentro está a picanha que foi prometida e ele não entregou", disse o senador, de 45 anos, durante um evento em agosto em Brasília. Em seguida, serviu churrasco aos jornalistas presentes.
A picanha é uma carne nobre, relativamente cara, muito apreciada nos churrascos de fim de semana em todo o país. Nos mercados, o preço do corte costuma variar entre 80 e 110 reais o quilo, constatou a AFP. Além disso, tem um valor simbólico.
"A sensação de comer picanha é a sensação de estar comendo como o rico come", explica Mirne Franco, dona de um açougue nos arredores de Brasília.
O Brasil é o maior exportador mundial de carne bovina e o segundo maior produtor, segundo a Associação Brasileira de Indústrias Exportadoras de Carne (ABIEC).
- "Não vejo nada mudando" -
Para chegar ao terceiro mandato, Lula, de 80 anos, foi novamente apoiado majoritariamente pelas classes populares.
"O povo vai voltar a comer picanha", prometeu o petista.
Mas o preço da picanha acumulou alta de quase 10% até agosto de 2026, segundo dados oficiais.
Às vésperas de uma eleição que se anuncia acirrada, os eleitores estão irritados.
A carne "está mais cara. Votei em Lula, mas não voto mais porque não vejo nada mudando", disse à AFP Lucas da Silva, de 23 anos, churrasqueiro em um restaurante de um bairro popular de Brasília.
A direita aproveitou esse aumento para fazer um banquete.
Em um vídeo do deputado bolsonarista Nikolas Ferreira (PL-MG), uma dona de casa fica sem dinheiro na hora de pagar as compras no mercado e abandona no caixa uma peça de picanha da marca "Promessa".
As imagens tiveram quase dez milhões de visualizações nas redes sociais.
- Dados em mãos -
Lula se defende com dados.
A inflação dos alimentos moderou-se: a média em seus primeiros três anos de governo é de 4%, diante dos mais de 11% de seu antecessor, Jair Bolsonaro, nos últimos três anos de seu mandato, afetados em parte pela pandemia.
"Esses dias, um adversário meu foi mostrar uma picanha na TV porque a picanha está cara (...) Era importante que esses adversários, ao invés de ir no supermercado e fazer pirotecnia, deviam acompanhar os dados do IPCA, para eles saberem que as coisas melhoraram muito nesse país", disse Lula em alusão ao vídeo que viralizou.
O presidente se vangloria de manter a inflação dentro da meta oficial e o desemprego historicamente baixo.
Mas o crescimento da economia desacelerou e o segundo trimestre foi de menos de 1%. O consumo caiu.
Para Robson Carvalho, pesquisador da Universidade Nacional de Brasília, Lula fez uma promessa em "linguagem figurada".
A picanha, disse à AFP, "simboliza as ações prometidas e desenvolvidas do ponto de vista de baixar, diminuir o preço dos alimentos ou segurar o preço dos alimentos".
- Sem controle -
A percepção dos consumidores é de que os preços sobem. Sessenta e sete por cento sentiram isso no último mês, segundo pesquisa do instituto Quaest em setembro.
"O pobre só conhece picanha de nome e a classe média, para comprar uma picanha, não consegue pagar por mais de um quilo", resume Mirne Franco, enquanto um de seus funcionários corta uma peça inteira em pedaços mais acessíveis.
Marcela Alves Cesar, secretária no Congresso, diz que "ama" carne, em especial os cortes mais nobres.
No entanto, ultimamente diz comprar mais frango, que considera mais saudável, e também por causa do preço da carne, que está muito alto.
Ao sair de um mercado em Brasília, ela diz que vai votar em Flávio Bolsonaro no primeiro turno, em 4 de outubro.
O pecuarista Carlos Roberto dos Santos, dono de 1.500 cabeças, afirma que a carne bovina é uma commodity e que seu preço depende da lei da oferta e da procura.
Lula "sabia que não tinha esse controle"; foi "promessa de um populista", disse à AFP em sua fazenda em Barretos, interior de São Paulo.
T.Bondarenko--BTB