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China e Rússia alertam contra a militarização do espaço após anúncio dos EUA
A China alertou, nesta terça-feira (15), para o risco de transformar o espaço em um "campo de batalha", e a Rússia afirmou que deve permanecer "livre" de armas, após os Estados Unidos confirmarem pela primeira vez que possuem armamentos implantados em órbita.
Segundo analistas, o anúncio de Washington confirma o que já era subentendido, mas eles acreditam que o momento escolhido pode exacerbar as tensões com Pequim e aumentar o risco de uma corrida armamentista espacial.
O anúncio marca uma nova etapa na competição entre as grandes potências para desenvolver capacidades militares baseadas no espaço, impulsionada por rápidos avanços tecnológicos, mas também ofuscada pela ausência de um marco regulatório abrangente.
"Os Estados Unidos possuem armas de controle espacial em órbita capazes de defender as Forças Conjuntas contra ações hostis de adversários", disse um porta-voz da Força Espacial dos EUA em um comunicado.
O Ministério das Relações Exteriores da China se opôs à medida e alertou contra a "militarização do espaço sideral, sua transformação em um campo de batalha e uma corrida armamentista nesse domínio".
"Instamos os EUA a cessarem a expansão de suas capacidades militares e a se prepararem para a guerra no espaço sideral", declarou Guo Jiakun, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China.
A Rússia, por sua vez, defendeu que o espaço permaneça "livre de todas as armas".
"Há um amplo consenso internacional para continuarmos trabalhando em prol da completa desmilitarização do espaço", afirmou Dmitri Peskov, porta-voz do Kremlin.
- Capacidades americanas -
A declaração dos Estados Unidos não ofereceu detalhes sobre quais armas foram implantadas no espaço ou quantas existem.
"O controle do espaço abrange as áreas de missão necessárias para contestar e controlar a supremacia espacial, empregando meios cinéticos e não cinéticos para afetar as capacidades de um adversário", afirmou a declaração.
"Essas capacidades podem ser empregadas para fins ofensivos e defensivos", acrescentou.
Os meios não cinéticos podem incluir lasers projetados para cegar satélites ou mesmo interferência eletromagnética ou cibernética contra seus links de dados.
Para os Estados Unidos, tanto a Rússia quanto a China, seus principais rivais geopolíticos, representam ameaças potenciais aos seus interesses no espaço.
A China "desenvolve e opera capacidades espaciais e contraespaciais como parte de uma estratégia de modernização militar", segundo a Força Espacial dos EUA.
A Rússia, por sua vez, "vê o espaço como uma arena de combate e acredita que a supremacia espacial será um fator decisivo em conflitos futuros", acrescentou.
Em março de 2019, a Índia anunciou a destruição de um satélite em órbita baixa da Terra por meio de um teste de míssil, seguindo os passos de Rússia, China e Estados Unidos, demonstrando assim estar entre as potências espaciais mais avançadas do mundo.
- "Nenhuma surpresa" -
Song Zhongping, analista militar independente baseado em Hong Kong e ex-instrutor do Exército chinês, disse à AFP que o anúncio "não é nenhuma surpresa", já que o fato de os Estados Unidos possuírem esse tipo de armamento "é subentendido há muito tempo".
"Se a China implantará ou não armas no espaço dependerá inteiramente de os Estados Unidos seguirem nessa direção", acrescentou.
Durante décadas, a principal preocupação foi a possível presença de armas nucleares no espaço.
No entanto, as superpotências e outros países assinaram o Tratado do Espaço Sideral em 1967, que proíbe a colocação de armas de destruição em massa em órbita.
Desde então, Rússia, Estados Unidos, China e Índia têm explorado maneiras de combater no espaço fora do escopo desse tratado, incluindo a possibilidade de atacar satélites rivais, que são essenciais para comunicações militares, vigilância e navegação.
"Há uma lacuna regulatória porque o Artigo 4º do tratado de 1967 proíbe apenas armas de destruição em massa e armas nucleares em órbita", explicou a especialista em direito espacial Laetitia Cesari.
Segundo a especialista, é provável que o assunto esteja na agenda da próxima reunião da ONU sobre desarmamento, prevista para novembro.
W.Lapointe--BTB