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Ebola: as questões levantadas por uma epidemia singular
Uma cepa incomum, um surto detectado tarde demais, a ajuda internacional despencando... Vários fatores fazem com que a epidemia de ebola na República Democrática do Congo (RDC) seja especialmente difícil de combater.
- O que diferencia esta epidemia? -
Ela é "incomum" devido a "uma infeliz conjunção de circunstâncias", resumiu à AFP a imunologista francesa Aurélie Wiedemann, especialista no vírus ebola no Instituto Nacional de Saúde e Pesquisa Médica (Inserm).
A Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou, nesta terça-feira (19), para "a amplitude e a rapidez" desta epidemia, que se propaga no leste da RDC e que se suspeita já ter causado mais de 130 mortes.
O ebola não é novidade para esse país, que já sofreu 17 epidemias da doença, que mata entre um terço e a metade das pessoas infectadas. Mas, desta vez, o país enfrenta uma cepa pouco comum, conhecida como Bundibugyo.
Ela não parece necessariamente mais letal do que a cepa mais disseminada, conhecida como Zaire, mas, por ter sido identificada apenas em duas epidemias anteriores, sabe-se pouco sobre ela.
- Quais são as dificuldades? -
São muitas e, em grande parte, estão relacionadas a essa cepa específica. Em primeiro lugar, não existe nenhum tratamento, nem vacina com eficácia comprovada contra a variante Bundibugyo.
A OMS se comprometeu a estudar se os tratamentos ou vacinas contra o ebola poderiam funcionar mesmo assim.
"Mas estamos um pouco às cegas", alertou Wiedemann, destacando que a cepa Bundibugyo tem apenas 65% de similaridade com a Zaire, contra a qual foi desenvolvida a principal vacina.
Outro problema é que essa cepa aparentemente escapou, por várias semanas, da maior parte dos testes de detecção, calibrados para a cepa Zaire, o que contribuiu para uma detecção tardia, quando a epidemia já estava em plena expansão.
A isso somam-se outras dificuldades relacionadas à situação na RDC: várias zonas de guerra e muitas regiões bastante rurais, de difícil acesso.
- O que pode ser feito? -
Na ausência de um tratamento com eficácia comprovada, o desafio é detectar rapidamente os casos para tratar sintomas como a febre e isolar os pacientes para evitar a propagação.
"Outro pilar é o rastreamento de casos de contato, o que não é fácil", explicou à AFP Mamadou Kaba Barry, responsável em campo pela resposta da ONG Alima, que também destaca os desafios impostos por certos rituais que podem facilitar o contágio.
"Nós nos despedimos do falecido, damos nele um último banho, o beijamos... São costumes culturais enraizados há milênios, mas representam uma dificuldade", acrescentou.
Por outro lado, as ONGs também enfrentam uma redução generalizada da ajuda internacional, em particular por parte dos Estados Unidos, que, durante o segundo mandato de Donald Trump, desmantelaram sua agência de ajuda ao desenvolvimento (Usaid).
"A diminuição da ajuda teve um impacto na resposta", admitiu Barry. "Desbloquear recursos o quanto antes poderia fazer uma grande diferença já a partir de hoje".
- Há risco de pandemia? -
A maioria dos especialistas não acredita nisso, apesar de a epidemia já estar se espalhando para outros países, como Uganda. A própria OMS classificou a epidemia como uma emergência "de importância internacional", mas não "pandêmica".
Uma grande epidemia de ebola na África Ocidental em meados da década de 2010 não se espalhou para fora do continente, onde causou cerca de 30 mil mortes.
Embora o ebola se destaque por seu caráter altamente letal, é um vírus relativamente pouco contagioso em comparação, por exemplo, com os causadores da covid-19 ou do sarampo.
Ele não é transmitido por via aérea, explicou a epidemiologista Anne Cori, pesquisadora do Imperial College London. "É transmitido por contato com fluidos corporais de uma pessoa infectada, o que exige um contato bastante próximo e limita sua capacidade de se espalhar pelo mundo inteiro".
S.Keller--BTB