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Ebola e hantavírus confirmam que mundo continua despreparado, diz especialista em pandemias
Os surtos letais de hantavírus e ebola mostram que, embora a resposta às crises de saúde pública tenha melhorado, o mundo continua sem compreender plenamente os riscos de uma pandemia, advertiu uma especialista no tema.
Mais de seis anos após a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarar a pandemia de covid-19, os esforços globais para reformar a resposta a emergências sanitárias tiveram um impacto positivo na reação aos atuais surtos de hantavírus e ebola, afirmou Helen Clark, ex-primeira-ministra da Nova Zelândia e copresidente do Painel Independente de Preparação e Resposta a Pandemias.
Nesta quarta-feira (20), a OMS indicou que a epidemia de ebola na República Democrática do Congo (RDC) não representa "uma emergência pandêmica", mas constitui um risco "elevado" em nível nacional e regional.
"As novas normas sanitárias estão funcionando", disse Clark à AFP em Genebra.
Assim que o alerta foi emitido, na sexta-feira passada, para o novo surto de ebola na RDC — e semanas depois do anúncio de um surto de hantavírus a bordo do navio de cruzeiro MV Hondius, no Oceano Atlântico —, "a resposta foi bastante boa", avaliou.
"Nosso problema agora vai muito além disso", afirmou Clark, ressaltando que ainda há muito trabalho a fazer para identificar os riscos e compreender como "esses surtos surgem".
"Acho que precisamos de muito mais conhecimento sobre preparação baseada em risco", declarou, defendendo maior atenção à identificação dos riscos existentes, ao que "poderia surgir" e à necessidade de "estar preparado para enfrentar isso".
"Questões básicas de vigilância, de detecção precoce... ainda não chegamos lá", acrescentou.
Como exemplo, Clark observou que a espécie de hantavírus responsável pelo surto no cruzeiro — que desencadeou um alerta sanitário internacional após a morte de três pessoas — era conhecida por ser endêmica na região da Argentina de onde partiu a embarcação.
"Mas não está claro quanto os navios que partem regularmente dali sabiam sobre isso", disse.
Ao mesmo tempo, o surto da variante Bundibugyo do ebola, que se suspeita ter causado mais de 130 mortes na República Democrática do Congo, aparentemente passou despercebido durante semanas, porque os testes realizados buscavam outra variante do vírus e davam resultado negativo.
"Como isso pôde acontecer durante quatro ou seis semanas (...), espalhando-se, sem que tivéssemos os resultados dos testes necessários para demonstrar que se tratava de uma variante específica?", questionou a especialista.
A ex-chefe de governo defendeu uma investigação sobre "a cadeia de acontecimentos e o que podemos aprender com ela, o que ela revela sobre as capacidades de que precisamos".
- "Tempestade perfeita" -
Clark também destacou que o surto de ebola evidenciou o forte impacto dos cortes globais de ajuda internacional nos esforços de prevenção de doenças.
"Há uma tempestade perfeita", advertiu, lembrando que alguns países foram solicitados "de repente" a realizar muito mais investimentos em seus sistemas de saúde, anteriormente financiados por doadores internacionais.
"Com toda a boa vontade do mundo, os países mais pobres e frágeis simplesmente não têm dinheiro em caixa para fazer isso. Por isso, muitas áreas estão sendo negligenciadas", afirmou.
Clark insistiu que "a solidariedade global continua extremamente importante".
"Estamos falando de bens públicos globais", declarou, observando que já foi confirmado um caso de ebola em um cidadão americano infectado na RDC e que o hantavírus "apareceu repentinamente em lugares onde desembarcaram pessoas vindas do navio".
"Estamos todos juntos nisso. Portanto, precisamos encontrar formas de financiar a preparação e a resposta que reflitam nossos interesses compartilhados", concluiu.
G.Schulte--BTB