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Ex-funcionárias que acusam Julio Iglesias prestarão depoimento à Promotoria espanhola
As duas ex-funcionárias de Julio Iglesias que denunciaram o cantor por suposto tráfico de pessoas e crimes sexuais serão ouvidas pela Promotoria espanhola em uma data a ser definida, anunciaram nesta quarta-feira (14) as associações que apoiam as demandantes.
A denúncia veio à tona na véspera, após a publicação de uma investigação da emissora americana Univisión e do site espanhol elDiario.es, à qual uma ex-empregada doméstica e uma ex-fisioterapeuta de Iglesias afirmam terem sido submetidas a agressões e assédio sexual, fatos que, em um dos casos, poderiam ser qualificados como estupros.
Em uma coletiva de imprensa na terça-feira, Jovana Ríos Cisnero, da Women's Link, organização que representa as denunciantes, explicou que a Promotoria espanhola "decidiu recolher o depoimento das denunciantes", o que representa "um passo muito importante na busca por justiça".
Além disso, Ríos Cisnero explicou que sua organização "foi contactada por outras mulheres que alegam ter sido trabalhadoras do denunciado".
A organização explicou que os supostos fatos foram denunciados na Espanha, e não nos países onde teriam ocorrido, porque a legislação espanhola "pode ser uma opção interessante para dar acesso à justiça a essas mulheres", disse Gema Fernández.
Detalhou, ainda, que a Promotoria tem seis meses, prorrogáveis por mais seis, para decidir se arquiva o caso ou se segue adiante.
Em um comunicado emitido na manhã desta quarta-feira, a Anistia Internacional e a Women's Link afirmaram que "Laura e Rebeca [nomes fictícios] teriam vivido múltiplas e distintas formas de violência — sexual, psicológica, física e financeira — por parte de Julio Iglesias, entre janeiro e outubro de 2021".
"Em 5 de janeiro, foram levados ao conhecimento da Promotoria [espanhola] fatos 'que poderiam constituir um crime de tráfico de pessoas com fins de imposição de trabalho forçado e servidão', 'crimes contra a liberdade e a dignidade sexual, tais como assédio sexual', assim como um crime de lesões e crimes contra os direitos dos trabalhadores", expuseram.
- "Medo" -
Segundo o depoimento recolhido pelas duas organizações, Iglesias "as teria agredido e assediado sexualmente, verificado regularmente seus celulares, proibido que saíssem da casa onde trabalhavam e exigido jornadas de até 16 horas por dia, sem dias de descanso e sem contrato".
O cantor, de 82 anos, não respondeu aos pedidos de resposta da Univisión e do elDiario.es, informaram ambos os meios. Também não atendeu à AFP, que tentou contactá-lo na terça-feira.
A revelação das acusações contra Iglesias despertou uma intensa onda de reações na Espanha.
"A investigação que estamos conhecendo nestes dias dá medo, dá pânico", avaliou nesta quarta-feira a ministra do Trabalho, Yolanda Díaz, na Televisão Espanhola, onde expressou sua "condenação categórica" aos fatos e o "apoio imediato" às denunciantes.
O líder do Partido Popular, principal força da oposição de direita, afirmou, por sua vez, estar "muito surpreso" pelas informações.
Alberto Núñez Feijóo havia declarado que falava todos os meses com Iglesias, de conhecida simpatia conservadora, em uma entrevista em 2024 à edição espanhola da Vanity Fair.
"É necessário que essa investigação na Promotoria da Audiência Nacional seja feita e que nos digam exatamente o que há, se é que há algo", indicou, entretanto, nesta quarta-feira durante uma entrevista na Telecinco, na qual qualificou as denúncias como "muito graves".
O ex-empresário do cantor, Fernán Martínez, descreveu, por sua vez, um homem "beijoqueiro", "muito de contato físico", embora tenha assegurado que "nunca" viu "comportamentos agressivos", como os denunciados.
Nascido em 1943, o artista latino que mais vendeu discos no mundo ficou famoso ao interpretar músicas como "Soy un truhán, soy un señor", "Gwendolyne" e "Me olvidé de vivir", assim como por sua agitada vida pessoal.
De fama internacional, sobretudo na Espanha e na América Latina antes de uma bem-sucedida fase em Miami, viu sua carreira decolar na década de 1970.
Com oito filhos reconhecidos, Iglesias é pai do também bem-sucedido cantor Enrique Iglesias.
K.Brown--BTB