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Os pontos-chave do escândalo na Bolívia que atinge a direita latino-americana
Uma advogada baleada, um assessor presidencial investigado, maços de dinheiro, uma fazenda de "bots" e acusações de corrupção na cúpula do poder: o escândalo de Fernando Cerimedo atinge o governo da Bolívia e a direita latino-americana, inclusive no Brasil.
O argentino de 45 anos, que assessorava o presidente boliviano, Rodrigo Paz, foi detido em 18 de agosto, em Santa Cruz. Na véspera, sua companheira, a advogada boliviana Nadia Beller, que diz estar grávida, foi atacada por pistoleiros disfarçados de entregadores de comida. Ela sobreviveu a três tiros e acusou Cerimedo de planejar o atentado, para evitar que ela revelasse sua relação com o poder.
O ruído ecoou em outros países onde ele é conhecido. Participou das campanhas dos direitistas Jair Bolsonaro, no Brasil; Javier Milei, na Argentina; e Nasry Asfura, em Honduras, além da de Paz.
"O que esse personagem nos mostra é que as redes dos grupos de extrema direita são transnacionais, que estão fortemente conectadas", disse à AFP Marcela Ríos, diretora regional da IDEA Internacional, organização intergovernamental que promove a democracia.
- Tentativa de feminicídio -
Investigado por "tentativa de feminicídio", Cerimedo teve prisão decretada por seis meses. Seus advogados defendem sua inocência e rejeitam a existência de provas que o vinculem ao atentado.
Os investigadores encontraram mensagens em seu telefone para sustentar o pedido de prisão, segundo um relatório do Ministério Público.
Em uma delas, alguém o informa na noite do ataque: "Irmão, nesse momento atiraram nela". Uma nota de texto arquivada diz: "Ou a eliminamos já ou estamos ferrados. Você conhece alguém que possa fazer o trabalho?".
"Que (o presidente) me perdoe por não tê-lo obedecido e me envolver com essa louca”, disse Cerimedo na terça-feira ao jornal El Deber.
- Novas denúncias -
No dia seguinte ao ataque, Beller recebeu a imprensa no hospital e fez várias acusações contra Cerimedo, de agressão física a cumplicidade com narcotraficantes.
"Se eu não der esta declaração, porque o que ele quer é me calar, eles vão vir e vão terminar de me matar", afirmou à emissora DTV.
Em um imóvel de Cerimedo em La Paz, um promotor encontrou o equivalente, em espécie, a 43.000 dólares (o equivalente a R$ 219.183, na cotação atual).
Agora, ele é investigado por enriquecimento ilícito e lavagem de dinheiro. Por isso teve decretada uma segunda prisão preventiva e, na terça-feira, foi transferido da prisão de Santa Cruz para uma de La Paz.
Acusado por Beller de facilitar a liberação de aviões de pequeno porte apreendidos, foi aberto outro processo contra ele por suposta proteção ao narcotráfico.
- Governo sob suspeita -
A advogada de 33 anos diz ter sido "testemunha" de supostos atos de corrupção do governo de Paz, de sua esposa e de sua família política, com Cerimedo como operador relacionados ao gerenciamento estatal de combustíveis e a contratações públicas de seguros.
O presidente, que assumiu o mandato em novembro, minimizou os vínculos.
"Nunca houve uma relação de trabalho direta" com Cerimedo, afirmou, após admitir que ele o ajudou em sua campanha e no início de seu governo. Ele encontrou um "espaço" no poder da Bolívia como "resultado da falta de organização e institucionalidade por trás de Rodrigo Paz", diz à AFP a cientista política Daniela Osorio Michel.
Beller publicou fotos e mensagens para desmentir o presidente. Em uma delas, Cerimedo aparece ao lado de Paz e do chanceler boliviano durante uma reunião oficial com Marco Rubio, secretário de Estado americano.
- Ramificações latino-americanas -
Cerimedo fez carreira antes em publicidade e marketing digital. Fundador do grupo Numen e do veículo conservador La Derecha Diario, aproximou-se de candidatos de direita.
Participou das campanhas de Javier Milei na Argentina e de Jair Bolsonaro no Brasil, onde foi investigado por supostamente participar de uma "milícia digital" para contestar a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2022.
Promotores bolivianos encontraram em sua residência uma aparente "fazenda de bots", dispositivos para operar contas anônimas em redes sociais.
No Chile, foi aberta há alguns dias outra investigação contra ele por supostos crimes informáticos na campanha do plebiscito constitucional de 2020.
No México, a presidente de esquerda Claudia Sheinbaum afirmou que o jornal conservador que ele fundou é um "esquema para difundir notícias falsas".
A imprensa revelou que ele esteve no Peru durante a posse de Keiko Fujimori, em julho, mas ela negou qualquer vínculo.
Cerimedo "é um bom exemplo" de certas atividades que são realizadas na "opacidade" e "que são amparadas por atores políticos", conclui Ríos.
O.Krause--BTB