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Festival de Veneza, entre o existencialismo e a ameaça nuclear
Uma adaptação de "O Estrangeiro" de Albert Camus, dirigida por François Ozon, e um thriller político sobre uma crise nuclear realizado por Kathryn Bigelow são as principais propostas desta terça-feira (2) no Festival de Cinema de Veneza.
Para filmar "O Estrangeiro", que relata a virada que dá a vida de um modesto funcionário na Argélia sob a colonização francesa após a morte de sua mãe, Ozon reencontrou os atores Benjamin Voisin e Rebecca Marder, com quem já havia trabalhado respectivamente em "Verão de 85" (2020) e "O Crime É Meu" (2023).
Nesta adaptação bem-sucedida em preto e branco da obra do existencialista francês Albert Camus, Benjamin Voisin interpreta Mersault, um personagem recluso, apático e de poucas palavras. Um registro ao qual Voisin não acostumou os espectadores.
"Eu teria adorado filmar na Argélia, teria gostado de filmar em Argel. Filmamos em Marrocos e correu muito bem, em Tânger", reconheceu, nesta terça-feira, em uma coletiva de imprensa, o diretor francês, aludindo às "relações complicadas" entre a França e a Argélia.
Para o cineasta, de 57 anos, seu filme deveria oferecer "uma visão atual sobre esta história", ainda quente, e lamentou que, apesar de haver tantas "famílias francesas com vínculo com esse país" não tenha sido "feito um trabalho histórico suficiente de introspecção".
A outra grande estreia desta terça-feira é trazida pela diretora americana Kathryn Bigelow, que apresenta "Casa de Dinamite", um thriller político ambientado na Casa Branca e com um míssil lançado por um agressor desconhecido em direção aos Estados Unidos.
A cineasta de 73 anos, que realizou o oscarizado "Guerra ao Terror", colaborou nesta ocasião com Idris Elba e Rebecca Ferguson.
"Senti que era importante trazer essa conversa", destacou a diretora em coletiva de imprensa. "Este é um tema global, o das armas nucleares (...): estamos realmente vivendo em uma casa de dinamite", alertou.
Tanto "O Estrangeiro" como "Casa de Dinamite" fazem parte da seleção de 21 filmes que competem este ano pelo Leão de Ouro, que será atribuído em 6 de setembro por um júri presidido pelo americano Alexander Payne.
Por outro lado, "Dead Man's Wire", o último filme de Gus Van Sant (73 anos), apresentado nesta terça-feira na Mostra, não competirá pelo prêmio.
O último filme do americano conta a história de Tony Kiritsis, um homem que, sufocado pelas dívidas, tomou como refém seu credor, diretor de uma empresa de créditos hipotecários.
- Dos videoclipes para os filmes -
Na seção "Horizontes", dedicada a novas tendências, a surpresa vem das mãos do americano-colombiano Stillz, conhecido por dirigir videoclipes de artistas como Bad Bunny e Rosalía, e que nesta terça-feira apresenta no Lido "Barrio triste", seu primeiro longa-metragem.
Com a estética própria do artista (granulação do filme, cores intensas) e um movimento errático de câmera, Stillz segue um grupo de jovens no final dos anos 1980 em um bairro empobrecido de Medellín.
A história começa com o roubo de uma câmera de um jornalista, com a qual os jovens acabam mostrando um mundo cheio de violência, mas também de solidão e vulnerabilidade, principalmente através do olhar de Juan (interpretado por Juan Pablo Baena), um jovem cansado dessa tristeza, que anseia pela inocência e pelo apoio de sua família.
Também competirá pelo prêmio de melhor filme de estreia o espanhol Gabriel Azorín, diretor de "Anoche conquisté Tebas", sobre um grupo de amigos portugueses que visitam as termas romanas e acabam conhecendo os soldados que as construíram há centenas de anos.
Azorín projeta seu filme na seção paralela "Jornadas dos autores".
C.Meier--BTB