Berliner Tageblatt - Gisèle Pelicot explica por que quis que seu julgamento fosse público

Gisèle Pelicot explica por que quis que seu julgamento fosse público
Gisèle Pelicot explica por que quis que seu julgamento fosse público / foto: © AFP

Gisèle Pelicot explica por que quis que seu julgamento fosse público

"Se eu tivesse tido vinte anos a menos, talvez não tivesse me atrevido a recusar o julgamento a portas fechadas", escreve Gisèle Pelicot em suas memórias, nas quais relata o histórico processo pelas violações organizadas por seu marido, segundo trechos publicados nesta terça-feira (10) pelo jornal Le Monde.

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A francesa relembra o julgamento de Avignon, em 2024, que teve impacto internacional pela dimensão dos fatos, pelo número de acusados e por sua decisão de pedir que as audiências fossem públicas, e não realizadas a portas fechadas.

"Quando me lembro do momento em que tomei minha decisão, penso que, se tivesse tido vinte anos a menos, talvez não tivesse me atrevido a recusar o julgamento a portas fechadas. Teria temido os olhares, esses malditos olhares com os quais uma mulher da minha geração sempre teve de lidar", afirma nas memórias intituladas em português "Um hino à vida", que serão publicadas em 17 de fevereiro em 22 idiomas.

"Talvez a vergonha vá embora mais facilmente quando você tem setenta anos e já ninguém presta atenção em você. Não sei. Eu não tinha medo das minhas rugas nem do meu corpo", confessa nesse relato escrito em parceria com a jornalista e romancista Judith Perrignon.

Pelicot foi estuprada durante anos por dezenas de homens depois de ser sedada pelo marido sem seu consentimento.

No livro, ela explica, no entanto, o "sentimento confuso" que a acompanhou antes do julgamento: "A ele [Dominique Pelicot], eu tinha vontade de tê-lo diante de mim. Deles, eu temia o número", relata.

"Quanto mais o julgamento se aproximava, mais eu me imaginava me tornando refém de seus olhares, de suas mentiras, de sua covardia e de seu desprezo", continua. "Será que eu não os estava protegendo se fechasse as portas?", questiona-se, segundo os trechos publicados no Le Monde.

O livro narra sua incredulidade ao descobrir, na delegacia, fotografias suas durante os estupros sob submissão química: "Eu não reconhecia os indivíduos. Nem aquela mulher. A bochecha estava tão flácida, a boca tão mole. Era uma boneca de pano".

Sua decisão de pedir que o julgamento fosse público e sua postura durante as audiências a transformaram em uma figura de destaque na luta contra a violência contra as mulheres, tornando-se inclusive um símbolo para alguns.

W.Lapointe--BTB