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Rebeldes apoiados por Ruanda avançam no leste da RDC após controlarem cidade-chave
Os rebeldes apoiados por Ruanda abriram nesta quarta-feira (29) uma nova frente no leste da República Democrática do Congo (RDC) após tomarem quase toda a cidade de Goma, a principal cidade dessa região rica em minerais usados pelo setor de tecnologia.
O rápido avanço do grupo armado M23 e das tropas ruandesas provocou diversos apelos da comunidade internacional pelo fim dos combates. Tanto a ONU quanto os Estados Unidos, China e a União Europeia pediram que Ruanda retire suas forças da região.
Os confrontos entre soldados congoleses e rebeldes em Goma, uma cidade com mais de um milhão de habitantes, deixaram mais de 100 mortos e cerca de 1 mil feridos nos últimos três dias, segundo um balanço dos hospitais, que estão sobrecarregados.
Os rebeldes e as tropas ruandesas entraram na cidade no domingo e desde então assumiram o controle do aeroporto e da maior parte do centro.
Goma é a capital da província de Kivu do Norte e está localizada às margens do lago Kivu, próximo a Ruanda.
O M23, liderado pela etnia tutsi, realizou nesta quarta-feira uma nova incursão em duas localidades da província de Kivu do Sul, vizinha do Kivu do Norte, de acordo com fontes locais.
"Não houve combates", afirmou um representante da sociedade civil sob condição de anonimato. Vários moradores das localidades ocupadas confirmaram a chegada dos rebeldes. Nem o governo congolês nem o de Kinshasa confirmaram essas informações até o momento.
A RDC acusa Ruanda de querer saquear as muitas riquezas naturais da região. Ruanda, que nega, denuncia a presença de grupos hostis em território congolês.
- "Há fome em Goma" -
Combates intensos agravaram a crise humanitária em uma região turbulenta, rica em minerais e assolada durante décadas por grupos armados apoiados por rivais da região após o genocídio ruandês de 1994.
Mais de 500 mil pessoas foram obrigadas a deixar suas casas desde o começo do ano, segundo as Nações Unidas, que alertaram para a escassez de alimentos, o saque da ajuda e a possível propagação de doenças.
"Há fome em Goma. É preciso pegar água no lago e estamos sem medicamentos", denunciou Kahindo Sifa, um morador da cidade.
Os habitantes começaram nesta quarta a sair de suas casas, uma vez que diminuíram os confrontos e bombardeios.
Mas nas ruas há muitos corpos, verificaram jornalistas da AFP e moradores da localidade, onde vivem centenas de milhares de deslocados.
O embaixador itinerante de Ruanda para a região dos Grandes Lagos, Vincent Karega, declarou à AFP que o avanço do M23 "continuará" em Kivu do Sul.
Inclusive não se descarta que os combatentes avencem para além do leste do país porque as forças congolesas estão concentradas em Goma, disse Karega.
Os Estados Unidos ordenaram nesta quarta-feira que seu pessoal diplomático que não presta serviços de emergência deixasse o país.
Manifestantes atacaram na terça embaixadas de vários países, incluindo os EUA, acusando-os de não intervir para deter o caos no leste da RDC. Os ataques ocorreram em Kinshasa, a capital, mais de 2,6 mil km a oeste.
- ONU preocupada com conflitos étnicos -
Diante da pressão internacional crescente para pôr um fim à crise, os esforços diplomáticos fracassaram quando o presidente congolês, Félix Tshisekedi, se negou a participar dos diálogos, nesta quarta-feira, com seu contraparte ruandês, Paul Kagame.
O vasto país centro-africano é rico em ouro e outros minerais, como o cobalto, uma matéria-prima chave para a fabricação de baterias de alta performance, incluindo as usadas em smartphones e carros elétricos.
A RDC acusa Ruanda de realizar a ofensiva para se beneficiar dos minerais abundantes na região, coincidindo com especialistas da ONU, segundo os quais Kigali tem milhares de tropas no país vizinho e um "controle de fato" sobre o M23.
A missão da ONU na RDC tem alertado para o risco de que os combates reacendam conflitos étnicos que remontam à época do genocídio e informou ter documentado "pelo menos um caso de linchamento por motivos étnicos".
O M23 ocupou Goma brevemente no fim de 2012, antes de ser derrotado pelas forças congolesas e da ONU no ano seguinte.
burs-cld-dl/kjm/pb/mb/mvv/ic/am
A.Gasser--BTB