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Jeannette Jara, a comunista que se afasta do PC em sua campanha à Presidência do Chile
Bandeiras chilenas são agitadas, mas nenhuma vermelha ou com a foice e o martelo. A mensagem nos comícios da candidata presidencial de centro-esquerda, a comunista Jeannette Jara, é clara: construir um projeto comum.
A decisão não é banal em um país com um influente Partido Comunista (PC), que chegou ao poder pelas urnas com a coalizão de Salvador Allende em 1970 e com a de Gabriel Boric em 2022, mas que também é hoje um dos mais liberais da região em termos econômicos.
Em um comício alguns dias atrás em um ginásio em Rancagua, cidade mineradora do centro do país, os simpatizantes de Jara, militante do PC desde os 14 anos, a receberam com aplausos e sem a antiga simbologia partidária.
Muitos correram para tirar uma foto com essa advogada e ex-ministra do Trabalho do governo Boric, de 51 anos, que venceu por ampla margem a primária dos governistas.
"Acho que é uma mulher que transcende barreiras", destaca Estefany López, assistente social de 33 anos. "Ela consegue superar o que sua ideologia representa", acrescenta.
Jara, de cabelo curto, jeans e jaqueta, esbanja carisma diante de cerca de mil participantes. Com microfone em mãos, inicia um diálogo com os moradores e insiste no valor de "todas as opiniões" para a construção de um "projeto comum".
Apesar de sua militância, a candidata marcou diferenças em relação a algumas posições do Partido Comunista.
Isso poderia favorecê-la "com esse medo que há" do comunismo, diz à AFP Esmeralda Ojeda, uma professora de 53 anos que participou do evento em Rancagua.
"Só temos que olhar a pessoa. Que seja comunista, nada [importa para mim]", acrescenta.
- Negociação e carisma -
Jara lidera as pesquisas junto com o candidato de extrema direita José Antonio Kast, indicando uma corrida eleitoral polarizada. Oito candidatos disputarão as eleições em 16 de novembro.
Durante sua gestão como ministra do Trabalho, Jara concretizou uma esperada reforma do sistema de pensões e a redução da jornada semanal de trabalho de 45 para 40 horas.
Também conseguiu fechar acordos com opositores e empresários. "Não devemos nos apaixonar pelas próprias ideias", costuma dizer.
Mas o fator determinante de sua liderança tem sido seu carisma transbordante.
Nascida em 23 de abril de 1974, de origem humilde, Jara é filha de um mecânico e uma dona de casa, e é a mais velha de cinco irmãos.
Teve que trabalhar desde pequena e se casou pela primeira vez aos 19 anos, mas seu marido se suicidou dois anos depois. Casou-se novamente, teve um filho que hoje tem 19 anos, divorciou-se anos mais tarde e hoje está em um relacionamento.
Foi líder universitária e se envolveu no trabalho sindical.
O PC "lhe deu autonomia para conduzir este processo de campanha, para exercer sua liderança, já que está obrigada a representar nove partidos", explica à AFP o senador comunista Daniel Núñez.
Assim, criticou o regime do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e também Cuba, divergindo da linha partidária.
Ela defende uma política fiscal ordenada em um país com serviços públicos e de pensões predominantemente privados e com uma das economias mais abertas da região.
Jara "integra um setor [do PC] que não tem problemas em se declarar social-democrata, que tem uma visão muito mais liberal da economia e que participa muito mais da cultura pop", aponta o escritor e analista Eugenio Tironi.
- Desconfiança -
Mas nem todos confiam que Jeannette Jara seja uma "comunista light", como alguns asseguram.
"Tenho medo de que, se Jara vencer, o Chile se torne uma Cuba ou uma Venezuela", afirma, em Santiago, a aposentada Astrid Hernández, de 78 anos.
"É muito difícil que uma pessoa que se formou desde os 14 anos [...] em um partido que é absolutamente dogmático, piramidal, estruturado, [venha agora e diga] 'eu mudei'", disse a uma rádio local Juan Sutil, ex-líder da associação que reúne as maiores empresas do Chile.
Jara faz parte de um partido que "adquiriu posições cada vez mais doutrinárias, mais esquerdistas", disse à AFP Ernesto Ottone, ex-militante do PC e ex-assessor presidencial de Ricardo Lagos (2000-2006).
Ela tenta rebater esses julgamentos. "Não se preocupem, no meu governo não vão lhes expropriar nada", declarou a grandes empresários reunidos em um fórum em julho.
F.Müller--BTB