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Crime e imigração irregular pautam eleições presidenciais no Chile
Os chilenos votam em um novo presidente neste domingo (16), com uma ex-ministra do Trabalho comunista e um advogado de extrema direita como favoritos, preocupados principalmente com a segurança e a imigração irregular, dois temas que impulsionaram a direita.
Jeannette Jara, do Partido Comunista e representante de uma coalizão de centro-esquerda, e o ultradireitista José Antonio Kast, que associa o crime aos imigrantes sem documentos regularizados e propõe um plano para expulsá-los, lideram as pesquisas que projetam um segundo turno em 14 de dezembro.
Ambos focaram suas campanhas no combate à criminalidade e à imigração irregular. Cerca de 337.000 estrangeiros sem documentação vivem no Chile, a maioria venezuelanos, segundo dados oficiais.
"O que eu espero de um próximo presidente é mais mão dura", diz Hernán González, de 28 anos, que trabalha em um centro de reabilitação juvenil em Iquique, 1.800 quilômetros ao norte de Santiago.
Nesta cidade, porta de entrada da imigração irregular ao Chile, "há um enxame de pessoas, majoritariamente sem documentos, que estão gerando tráfico, criminalidade e consumo" de drogas entre os jovens, acrescenta.
O aumento dos homicídios, que triplicaram na última década, dos roubos com violência e do sequestro extorsivo dispararam o temor em um país que, no entanto, continua sendo um dos mais seguros da América Latina.
O clamor por mais segurança superou o desejo dos chilenos de concretizar profundas reformas sociais, como mostrou o fracasso do governo esquerdista de Gabriel Boric em aprovar uma nova Constituição para substituir a herdada da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990).
- "Pegue suas coisas e vá embora" -
As pesquisas antecipam que Jara venceria no primeiro turno, entre os oito candidatos na disputa.
Mas Kast, um advogado ultraconservador de 59 anos e admirador de Pinochet, ganharia o provável segundo turno, com os votos de outros três candidatos de direita: Evelyn Matthei, Johannes Kaiser e Franco Parisi, segundo analistas.
Kaiser subiu nas pesquisas nas últimas semanas, com propostas como enviar "estrangeiros ilegais que estão no Chile com antecedentes criminais" para a megaprisão construída em El Salvador pelo presidente Nayib Bukele, declarou em uma entrevista à AFP.
Kast mantém a contagem regressiva de seu plano de expulsão de imigrantes irregulares caso seja eleito. "Pegue suas coisas e vá embora", avisou o candidato, que deixou de lado a rejeição ao aborto e ao casamento homoafetivo, temas centrais de suas duas campanhas anteriores, para focar na questão migratória.
Ele propõe erguer um muro nas fronteiras, abrir uma vala e mobilizar 3.000 militares para conter a entrada de imigrantes, assim como combater o crime com prisões superseguras, penas mais severas e o envio de militares e policiais para zonas críticas.
"Os que terão medo no futuro serão os narcotraficantes, o crime organizado e os terroristas. O Chile terá uma mudança real e radical", disse Kast na segunda-feira, no último debate antes da eleição.
O avanço da extrema direita no Chile "deve ser entendido como um fenômeno global", no qual também influencia "uma questão-chave que tem sido a crise migratória", explica Rodrigo Espinoza, cientista político da Universidade Diego Portales.
- Batalha difícil -
Jara, de 51 anos, venceu a nomeação nas primárias. A ex-ministra do Trabalho do governo de Boric também aborda em seu discurso o clamor por uma maior segurança e promete mais policiais e um censo de estrangeiros.
"Não tenho nenhum complexo em matéria de segurança (...) Venho de uma comunidade e sei o dano que as drogas causam", disse à imprensa.
Ela propõe a suspensão do sigilo bancário para "perseguir o controle do dinheiro do narcotráfico e do crime organizado", afirmou no último debate.
"A insegurança preocupa a todos, mas não é a única coisa que me preocupa (...) Votarei em Jara para evitar a perda de direitos", diz a designer Javiera Silva, de 25 anos.
Mas a filiação da candidata ao Partido Comunista torna esta eleição uma "batalha difícil", afirma Michael Shifter, ex-presidente do think tank Diálogo Interamericano e professor de Estudos Latino-Americanos na Universidade de Georgetown.
Cerca de 15,6 milhões de eleitores estão convocados às urnas. Pela primeira vez, o voto será obrigatório, com uma multa de até 100 dólares (R$ 527, na cotação atual).
D.Schneider--BTB