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Arica, a cidade chilena na fronteira com o Peru intimidada pelo crime
Em Arica, a cidade mais ao norte do Chile, a população sempre conviveu com estrangeiros. Paloma Cortés não tinha receio deles até que imigrantes sem documentos ocuparam alguns imóveis e o medo e o crime se instalaram em seu bairro.
A insegurança e a imigração irregular são temas centrais do segundo turno presidencial de 14 de dezembro entre a esquerdista Jeannette Jara e o ultradireitista José Antonio Kast, favorito nas pesquisas e que promete expulsar centenas de milhares de indocumentados.
A cerca de 10 km de Arica, no deserto do Atacama, encontra-se um dos postos fronteiriços mais movimentados do país: 5.000 chilenos, peruanos e bolivianos vão e vêm diariamente.
Mas desde 2020 começaram a chegar mais imigrantes irregulares para se estabelecer no Chile, em sua maioria venezuelanos. Se em 2018 eram 200, em 2023 somavam 5.000, segundo o Serviço de Migrações.
Sua chegada acabou com a tradicional calmaria em Arica, uma cidade de 250.000 habitantes com costa no Pacífico onde quase não chove, dizem moradores à AFP.
"Antes você podia ir até a praia à noite e voltar caminhando. Agora já não", assegura Cortés, uma vendedora de maquiagem de 27 anos.
- Trem de Aragua -
Embora uma parte dos imigrantes irregulares tenha se inserido na economia de serviços, também chegou o Trem de Aragua, a gangue internacional venezuelana que semeia terror com sequestros, extorsões e assassinatos.
Seus membros se apoderaram de um conjunto de casas abandonadas no morro Chuño, perto de onde vive Cortés, e montaram ali sua base de operações.
"Antes te assaltavam e levavam suas coisas. Agora te batem, te esfaqueiam, te mandam para o hospital", afirma ela.
Arica enfrentou um aumento explosivo do crime. Em 2019 registrava uma taxa de 5,7 homicídios por 100.000 habitantes, número que em 2022 subiu para 17,5, quase o triplo da média nacional.
"Os assassinatos encomendados, o sequestro, são coisas que não existiam", corrobora Alfonso Aguayo, um segurança de 49 anos.
Em 2022, a polícia desmantelou a cúpula do Trem de Aragua em Arica e invadiu o morro Chuño. Lá, as autoridades encontraram uma casa transformada em um centro de torturas e restos de três cadáveres.
Em março deste ano, a Justiça impôs penas que somaram quase 560 anos de prisão a 31 venezuelanos e três chilenos da organização.
A população sentiu um alívio. No ano passado, o índice de homicídios caiu para 9,9, mas ainda supera a média nacional de 6,6 casos por 100.000 habitantes.
Há quatro anos, o atual presidente de esquerda Gabriel Boric recebeu 50,6% dos votos em Arica. Mas desde então a cidade deu uma guinada à direita.
No primeiro turno das presidenciais, em novembro, os candidatos da direita somaram três quartos dos votos, liderados pelo economista Franco Parisi, que propunha expulsar os indocumentados e instalar minas antitanque na fronteira.
Kast, por sua vez, quer construir uma vala na fronteira e promete deportar os 337.000 imigrantes irregulares que vivem no Chile com seu plano anticrime.
- O lado nobre -
Embora a sensação de medo seja comum em Arica, os imigrantes também são uma força de trabalho valorizada.
A insegurança "não tem a ver com a imigração, mas com a bondade ou a maldade das pessoas", diz à AFP Fermín Burgos, um professor aposentado de 75 anos.
Seu filho tem um restaurante que contratou duas venezuelanas sem documentos como garçonetes. "Estão ilegais, mas são excelentes", ressalta.
No Chile, os imigrantes irregulares podem acessar serviços médicos e seus filhos podem frequentar a escola pública. Também costumam trabalhar no comércio informal ou como entregadores. Nenhuma autoridade os persegue.
A venezuelana Fernair Rondo, de 35 anos, vive no Chile há sete anos. "Quando eu cheguei, havia cordialidade. Não havia essa xenofobia (...) antes era mais seguro, mas todos pagam por uns e todos os venezuelanos são rotulados como maus", afirma esta vendedora de uma loja de bebidas.
Muitos estrangeiros se integraram à sociedade chilena. Em áreas como a saúde, 5,8% dos médicos em todo o país são imigrantes, segundo a autoridade reguladora do setor.
É uma "contribuição" fundamental, aponta Claudia Villegas, diretora da saúde municipal de Arica. "Em áreas como a nossa, que são extremas, não conseguimos cobrir a demanda por médicos com os formados na região", diz à AFP.
K.Thomson--BTB