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Presidente interina diz governar Venezuela sem influência externa, apesar de Trump
A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, assegurou nesta terça-feira (6) que governa sem a influência de qualquer "agente externo", apesar da pressão exercida por Donald Trump desde o primeiro momento.
Delcy Rodríguez foi vice-presidente de Nicolás Maduro até a captura do presidente deposto em uma surpreendente incursão militar dos Estados Unidos, que deixou dezenas de mortos, entre eles 55 militares cubanos e venezuelanos pertencentes à segurança do governante deposto.
Delcy tomou posse na segunda-feira, com o crucial reconhecimento das Forças Armadas e o apoio dos demais poderes públicos.
"Este é um povo que não se rende, somos um povo que não nos entregamos", disse a presidente interina durante uma reunião com a equipe econômica transmitida pela TV estatal.
"Estamos aqui governando junto com o povo. O governo da Venezuela governa em nosso país, mais ninguém. Não há agente externo que governe a Venezuela, é o governo da Venezuela", enfatizou.
Trump insiste que está "no comando" do país e sugeriu que foi decisão sua deixar Delcy Rodríguez no poder, sem considerar por ora entregar o governo à oposição liderada pela vencedora do prêmio Nobel da Paz, María Corina Machado.
Trump advertiu a nova governante de que, se "não fizer a coisa certa, vai pagar um preço muito alto, provavelmente maior do que o de Maduro".
Delcy, por sua vez, enviou uma carta de tom cordial na qual defendeu uma relação equilibrada e respeitosa entre os dois países.
— "Prisioneiro de guerra" —
Maduro e a esposa, Cilia Flores, enfrentam agora a Justiça dos Estados Unidos, acusados de narcotráfico e outros crimes.
"É um sujeito violento e matou milhões de pessoas", disse Trump em uma conferência com parlamentares republicanos.
O Departamento de Justiça retirou a maioria das referências ao chamado Cartel dos Sóis na nova acusação contra Maduro, Flores, seu filho "Nicolasito", seu ministro do Interior e o chefe da temida quadrilha Tren de Aragua.
Parte da operação contra Maduro baseou-se na designação como terrorista dessa suposta organização narcotraficante, que agora foi definida como um "sistema de clientelismo", segundo reportaram jornais como El País e The New York Times.
Não está claro como essa mudança pode afetar o processo contra Maduro, que denunciou ser um "prisioneiro de guerra" ao se declarar não culpado.
"Sou um homem decente, continuo sendo o presidente do meu país", afirmou na audiência, antes de ser interrompido pelo juiz.
A presidente do México, Claudia Sheinbaum, pediu um "julgamento justo" para Maduro, enquanto as Nações Unidas consideraram que a operação que levou à sua captura "minou um princípio fundamental do direito internacional".
— "Reacomodação" —
Delcy não governa apenas sob enorme pressão dos Estados Unidos, mas também enfrenta o desafio de reorganizar o chavismo sem Maduro.
Um general da reserva que ocupou altos cargos nas Forças Armadas considerou que Delcy Rodríguez abrirá as portas do país para petroleiras e mineradoras americanas. Ele não descarta uma retomada das relações diplomáticas com Washington, rompidas em 2019.
E, em paralelo, "de maneira acessória", impulsionará "uma agenda política eleitoral", que inclua a libertação de políticos presos, acrescentou a fonte.
O governo interino tem duração máxima de 180 dias, após os quais o Executivo terá de convocar eleições.
"O objetivo principal é ganhar tempo para consolidar a reacomodação e aproveitar que as demandas e condições de Washington estão centradas na questão petrolífera, o que também levará certo tempo para se concretizar", disse o analista político Mariano de Alba.
Rodríguez nomeou um novo czar da economia, cargo que ela mesma ocupava. Mantém intacto o restante do gabinete de Maduro, com Diosdado Cabello no Ministério do Interior e Vladimir Padrino no da Defesa como figuras-chave.
"Delcy deveria dormir com um olho aberto agora mesmo", disse à AFP o ex-diplomata americano Brian Naranjo, que foi o número dois da embaixada de seu país na Venezuela entre 2014 e 2018, antes de ser expulso por Maduro.
"Atrás dela há dois homens que ficariam mais do que felizes em cortar sua garganta e assumir o controle", acrescentou, em referência a Cabello e Padrino.
De Alba estimou, no entanto, que "apesar das diferenças internas, o chavismo tem bem internalizado que apenas em uma coesão aparente tem chance de se perpetuar no poder".
— "Mulher revolucionária" —
O chavismo realizou nesta terça-feira uma "marcha de mulheres" para pedir a libertação de Maduro e Flores. O movimento convocou manifestações diárias desde sábado.
Milhares de apoiadores participaram dos protestos. Cabello caminhou com a multidão por uma importante avenida de Caracas.
"Nós estamos dispostos a ir até onde for preciso para defender nosso presidente Nicolás Maduro e nossa primeira-dama", disse à AFP Sara Rodríguez. "Estamos aqui dispostos a defender isso até que Maduro volte."
"A mulher que está representando agora, que assumiu a presidência interina, é uma mulher revolucionária, é o máximo, é uma mulher de confiança", afirmou, por sua vez, Sara Fernández, de 70 anos.
Na segunda-feira, em meio à instalação do Parlamento e à posse, 14 jornalistas foram detidos em Caracas. Quase todos pertenciam a veículos internacionais. Outros dois foram retidos na fronteira com a Colômbia, segundo o sindicato da imprensa, que informou que todos foram libertados.
Outro correspondente foi deportado a partir do aeroporto que atende Caracas.
A repressão política não pode ser tolerada na Venezuela, declarou nesta terça-feira o secretário-geral da OEA, Albert Ramdin, em uma sessão extraordinária da Organização dos Estados Americanos.
M.Furrer--BTB