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A última manhã de Lorenzo Salgado: entre o sonho americano e uma bala do ICE
O último dia da vida de Lorenzo Salgado começou de forma muito semelhante à maioria dos 35 anos que ele passou nos Estados Unidos: acordou cedo, se arrumou, beijou a esposa, fez carinho no cachorro e saiu para o trabalho. Minutos depois, um agente de imigração atirou nele.
Em 7 de julho, "minha mãe e meu pai acordaram às 5 da manhã", relata seu filho, Ronaldo Salgado.
Lorenzo se vestiu, pegou o almoço e o café que a esposa havia preparado e se despediu. Colocou um chapéu e, às 5h50, saiu em sua van para buscar os trabalhadores de sua equipe.
Nascido em Tlatlaya, no México, em 3 de março de 1974, Lorenzo administrava uma pequena empresa de construção.
Às 6h45, ele deveria buscar o último de seus funcionários antes de seguir para o norte de Houston para terminar a construção de algumas casas.
"Às 6h55, sem que nenhum de nós soubesse, meu pai havia levado um tiro dentro de sua van", disparado por um membro do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), que estava no local com outros agentes em veículos sem distintivos.
Em meio à repressão do governo Trump à imigração irregular, o Departamento de Segurança Interna dos EUA informou que agentes do ICE tentaram abordar o veículo de Lorenzo, mas o homem "tentou escapar da detenção".
"Ele colidiu contra uma viatura do ICE (...) e usou seu veículo como arma na tentativa de atropelar um agente do ICE, levando nosso agente a disparar sua arma em legítima defesa", dizia o comunicado.
Este é o primeiro caso de morte por disparo envolvendo agentes federais desde as mortes, em janeiro, dos americanos Renee Good e Alex Pretti em Minneapolis.
Quanto ao caso de Renee Good, "o governo nos contou a mesma história: um veículo usado como arma, uma tentativa de atropelar um agente e legítima defesa. E então o vídeo foi divulgado e mostrou um agente abrindo fogo fora da trajetória do veículo", disse Juan Proaño, diretor executivo da Liga de Cidadãos Latino-Americanos Unidos (Lulac).
- "Soube pelas redes sociais" -
Ronaldo recebeu uma ligação de sua mãe. Ela lhe disse que "algo ruim" havia acontecido com seu pai envolvendo o ICE. Ele dirigiu até o local onde imaginava que o pai estaria, mas não encontrou ninguém.
Ele conta que viu uma publicação nas redes sociais sobre uma operação do ICE no East End, um bairro histórico de classe trabalhadora em Houston. Famílias de imigrantes, em sua maioria latinos, se estabeleceram na região há décadas.
Ronaldo encontrou as ruas bloqueadas e o veículo de seu pai.
"Vi um vídeo no Facebook dizendo que ele havia levado um tiro. Eu o reconheci imediatamente, não pela aparência, mas pela voz, gritando por socorro enquanto estava caído e sangrando na rua", relata.
O vídeo também mostrava outros homens deitados de bruços — presumivelmente dois trabalhadores e um parente que trabalhava com eles.
Foi por meio de organizações humanitárias que ele soube que seu pai havia sido levado para o Hospital Ben Taub, o mesmo onde ele e seus dois irmãos nasceram. Lá, também não lhe deram nenhuma informação.
"Soube da morte do meu pai por meio de uma publicação nas redes sociais", conta.
Quase 2.000 pessoas protestaram na quarta-feira em Magnolia Park, a área do East End onde Lorenzo foi baleado. Houve gritos contra o ICE e uma vigília.
Lorenzo Salgado, torcedor da seleção mexicana e do Chivas de Guadalajara, não tinha permissão de residência nos Estados Unidos.
Mas "após 35 anos nos proporcionando o 'sonho americano', ele começou a buscar o seu próprio e solicitou uma permissão de trabalho. Estava prestes a obter o status legal", explica Ronaldo.
"Meu pai foi seguido por dois carros sem distintivos. Se tivesse visto um emblema do ICE ou o distintivo de qualquer agência de ordem pública, teria parado (...). Ele dirigiu rápido porque achou que iam roubar suas ferramentas de trabalho, que eram seu meio de sustento", acredita.
"Meu pai não merecia morrer. Não merecia ser reduzido a uma manchete: 'Mexicano baleado e morto pelo ICE'."
I.Meyer--BTB