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Zelensky rejeita celebrar eleições porque 'dividiria a Ucrânia'
O presidente da Ucrânia, Volodimir Zelensky, afirmou que seria muito perigoso para o país organizar eleições enquanto luta contra a invasão russa, como defendeu nesta semana o popular ex-ministro da Defesa.
A Ucrânia suspendeu as eleições devido à lei marcial, uma medida que conta com amplo apoio da população para que o país se concentre na luta contra as tropas russas.
O líder ucraniano, eleito em 2019, já enfrentou pressões de seus homólogos, o russo Vladimir Putin e o americano Donald Trump, para convocar eleições, mesmo enquanto Moscou bombardeia o país diariamente.
O debate voltou à pauta, no entanto, com a polêmica proposta do ex-ministro da Defesa Mykhailo Fedorov, cuja demissão em julho provocou protestos que não haviam sido registrados desde o início da invasão russa em 2022.
"Acredito que, em uma guerra como esta, eleições, como tais, representam um enorme risco. Eleições neste momento são um tsunami para o país que vai dividir a Ucrânia", declarou Zelensky.
"Se quisermos destruir o país, então podemos seguir na direção de eleições em tempos de guerra", acrescentou o presidente de 48 anos.
Zelensky fez as declarações no sábado, durante um encontro com um grupo de jornalistas, incluindo repórteres da AFP, o primeiro do tipo após meses marcados por diversas crises políticas.
A maior delas foi a demissão de Fedorov, o que levou milhares de pessoas às ruas para pedir o retorno ao cargo de ministro da Defesa deste ferrenho defensor da inovação tecnológica, que promoveu reformas profundas no Exército.
Durante a semana, Fedorov fez um apelo surpresa para que o país organize uma eleição, mas sem apresentar um plano sobre como isso deveria acontecer, o que provocou o distanciamento de alguns de seus apoiadores.
Analistas apontaram uma série de obstáculos, entre eles como votariam os soldados, os milhões de refugiados ucranianos e os moradores dos territórios ocupados, assim como a ameaça de desinformação por parte da Rússia.
- Críticas -
Apenas 15% dos ucranianos acreditam que as eleições deveriam ser organizadas antes do fim da guerra, segundo uma pesquisa do Instituto de Sociologia de Kiev.
Zelensky lançou inúmeras farpas contra seu oponente durante o encontro com a imprensa. "Acredito que ele está seguindo por conta própria — ou está sendo empurrado — para coisas erradas", afirmou sobre Fedorov.
O ex-ministro promoveu reformas nas Forças Armadas e reforçou a estratégia de guerra com drones, o que infligiu golpes importantes às tropas e aos interesses russos. Mas ele entrou em conflito com o comando militar e sua abordagem tradicionalmente rígida.
Em um primeiro momento, a opinião pública ficou do lado dele e exigiu a demissão do comandante em chefe, Oleksandr Sirski, que acabou sendo destituído numa tentativa de abafar as manifestações.
Zelensky repetiu que as pessoas têm o direito de protestar, mas advertiu contra atitudes "desrespeitosas" em relação aos militares.
- Visita aos Estados Unidos -
A equipe de Fedorov confirmou à AFP neste domingo que ele planeja visitar os Estados Unidos em breve, uma viagem que provavelmente reacenderá as especulações sobre um posicionamento como rival de Zelensky.
A disputa interna ocorre em meio a um agravamento da guerra. A Rússia intensificou os ataques com mísseis balísticos, de difícil interceptação, que evidenciam as carências da defesa aérea da Ucrânia. Por sua vez, Kiev acelerou a campanha de ataques de longo alcance contra alvos do setor de energia e de logística do país vizinho, incluindo refinarias de petróleo e centros de distribuição.
Zelensky afirmou que Kiev tenta atacar as plataformas de lançamento dos mísseis balísticos que, na prática, só podem ser destruídos pelos sistemas Patriot de fabricação americana.
O presidente ucraniano ressaltou que recebeu 675 mísseis Patriot em 2023, contra 364 em 2025 e 264 em 2026.
O governo dos Estados Unidos enfrenta uma escassez dos mísseis Patriot devido à própria guerra contra o Irã, razão pela qual hesita em fornecer grandes quantidades à Ucrânia.
Zelensky disse que a Rússia pode produzir quase 100 mísseis balísticos por mês.
As mortes de civis atingiram os níveis mais elevados desde os primeiros meses da invasão, segundo números verificados pela ONU.
A Ucrânia receberá na segunda-feira (24) uma reunião de aliados europeus para discutir como aumentar a pressão sobre a Rússia e acabar com a invasão, iniciada em fevereiro de 2022.
H.Seidel--BTB