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Paquistão comemora ouro no lançamento de dardo com Arshad Nadeem, seu herói inesperado
Não era o favorito e faturou a medalha de ouro batendo o recorde olímpico no lançamento de dardo: Arshad Nadeem superou a falta de recursos e deu um ouro histórico ao Paquistão.
Durante muito tempo, Arshad treinou com um bastão e uma corda improvisados, algo que dá ainda mais méritos ao feito do paquistanês de 1,90m e 27 anos, pai de dois filhos, que levou euforia a seu país.
"Ele conseguiu o impossível e fez história. Todo o mundo estava olhando para o meu irmão. Ele trouxe a nossa primeira medalha depois de 21 anos, e logo de ouro", comemora seu irmão mais velho, Muhammad Azeem.
Em volta dele, em Mian Channu, na província de Punjab, fronteiriça com a Índia, a festa era total.
"Arshad Nadeem é de Mian Channu. Veio para cá de um pequeno povoado e levou as cores do Paquistão ao topo do mundo", afirma com orgulho Rasheed Ahmed (69 anos), treinador que percebeu seu talento esportivo em 2011.
Mas ninguém poderia prever que Arshad conseguiria uma medalha de ouro olímpica, muito menos no lançamento de dardo.
- Existe vida além do críquete? -
Como a imensa maioria dos paquistaneses, Arshad só podia sonhar com um esporte: o críquete.
Enquanto se preparava para os Jogos Olímpicos de Tóquio em 2021, ele admitiu à AFP que talvez tivesse chances de chegar à seleção do Paquistão se seguisse carreira no esporte, o mais popular no país.
Mas a vida lhe reservou outro destino. Seguindo os conselhos de um de seus irmãos, escolheu o atletismo, um esporte mais imediato que o críquete, cujos jogos podem durar vários dias.
A gestão de tempo era importante. Sua família, de sete irmãos e irmãs, precisava dele.
Em um país onde% da população vive abaixo da linha da pobreza, o objetivo número um é suprir as necessidades de todos, então Arshad teve que trabalhar desde muito cedo por decisão de seu pai, um pedreiro agora aposentado.
Arshad Nadeem se casou e teve dois filhos. Em seu tempo livre, continuava sonhando com o atletismo e praticava arremesso de peso, de dardo, de disco e de martelo, assim como salto em distância, salto em altura, salto triplo e 100 metros rasos, disse ele mesmo em 2021.
Sua vida mudou em 2015, quando foi contratado pelo Escritório Paquistanês de Águas e Eletricidade, uma autoridade governamental que conta com orçamento para apoiar talentos esportivos.
Lá ele também descobriu que o esporte envolve sacrifícios: treinos intensivos, dietas rigorosas, várias lesões nos joelhos e cotovelos e viagens.
Na quinta-feira, no Stade de France, seus sacrifícios foram recompensados e o Paquistão conquistou sua primeira medalha olímpica no atletismo.
Com um lançamento de 92,97m em sua segunda tentativa, Arshad pulverizou o recorde olímpico em mais de dois metros. O brasileiro Luiz Maurício da Silva, finalista da prova, terminou na 11ª colocação com um lançamento de 80,67m.
- "Um bastão e uma corda" -
O recorde anterior era do indiano Neeraj Chopra, campão olímpico em Tóquio em 2021. Nos últimos anos, os dois se tornaram amigos apesar de virem de dois países que mantêm uma rivalidade histórica.
Ambos dividiram pódios em diferentes competições, mas Chopra, uma estrela em seu país, era até agora o dominador e Arshad permanecia à sua sombra.
Agora, volta como protagonista ao Paquistão, com a primeira medalha olímpica do Paquistão desde 1992, a 15ª na história de um país que nasceu em 1947 depois da partição com a Índia. E a quarta de ouro.
Tudo isso sem contar com uma infraestrutura adequada para o atletismo, como conta à AFP Parvaiz Ahmed, ex-dirigente esportivo de Punjab.
"Os atletas tinham que se contentar com bastões de madeira e uma corda enrolada para simular um dardo", lembra. Frequentemente os treinos aconteciam sob temperaturas próximas aos 45°C.
"Quando vi que Arshad evoluía tanto, conseguimos para ele um dardo de verdade, que trouxemos de Sialkot [cidade a 400 quilômetros]", diz Ahmed.
Em todo caso, o Paquistão não conta com nenhuma infraestrutura profissional de atletismo, já que a prioridade continua sendo os campos de críquete e hóquei sobre grama.
Em março deste ano, Arshad Nadeem contou que treinava com seu único dardo havia sete anos e que só conseguiu outro com os Jogos de Paris batendo à porta.
Mas agora tudo certamente será diferente para ele: políticos e empresários do país já prometeram recompensas e presentes em reconhecimento à façanha em Paris.
R.Adler--BTB