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Crise na família Bolsonaro abala a direita antes das eleições
Uma família, três líderes e vários interesses em conflito. Uma disputa pela herança política do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), atualmente preso, coloca seu filho mais velho e pré-candidato à presidência, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), contra a ex-primeira-dama Michelle.
Três meses antes das eleições, a crise entre Michelle Bolsonaro (PL), de 44 anos, e Flávio Bolsonaro, de 45, ameaça a unidade da direita, que busca impedir a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Em uma guerra fria com seus quatro enteados há anos, a ex-primeira-dama divulgou dois vídeos de quase meia hora na semana passada, nos quais acusa Flávio de humilhá-la e os outros, também figuras políticas, de um "ataque coordenado" nas redes sociais.
O nome de Michelle havia sido cogitado como possível candidata à presidência até que Flávio anunciou, no final de 2025, que seu pai o havia escolhido como pré-candidato.
Agora, com a campanha de seu enteado em apuros devido a revelações que o vinculam ao banqueiro Daniel Vorcaro no caso do Banco Master, a ex-primeira-dama expôs a crise familiar a seus 8,2 milhões de seguidores no Instagram.
"Respeito demais a Michelle, eu tenho convicção que a gente vai superar esse momento difícil e que ela vai estar caminhando junto com a gente", respondeu Flávio.
- Mais que uma esposa -
Michelle acompanha e cuida da saúde de Jair Bolsonaro, de 71 anos, que cumpre em prisão domiciliar uma pena de 27 anos por uma tentativa de golpe de Estado em 2022.
Impedido de se pronunciar publicamente, não se sabe se Bolsonaro endossou o pronunciamento da esposa.
A ex-primeira-dama tem um histórico de atuação no Partido Liberal à frente do PL Mulher, o núcleo feminino do partido, e percorreu o país para impulsionar a organização de mulheres, um eleitorado que, segundo as pesquisas, é pouco inclinado a votar em Flávio.
Cristã evangélica, ela também exerce liderança sobre os fiéis dessa denominação protestante, fundamental para a ascensão da direita brasileira.
"Michelle Bolsonaro não é mais só a ex-primeira-dama ou só a esposa do ex-presidente Jair Bolsonaro. É a pessoa de conexão e de comunicação orgânica com o campo evangélico brasileiro", disse à AFP Ana Carolina Evangelista, diretora do Instituto de Estudos da Religião.
"Tem uma dupla importância aí, que é de expansão para o campo evangélico e de expansão para o campo feminino", explicou.
- "Humilhação" -
A disputa entre Michelle e Flávio Bolsonaro também se desenrola em meio à luta por indicações de aliados para as eleições parlamentares de outubro.
O ponto de virada aconteceu quando ela criticou publicamente a aliança do Partido Liberal com um político local influente que havia criticado seu marido e recebeu um telefonema de Flávio.
"Ele foi muito ríspido, me desrespeitou e me maltratou o telefone", disse ela em vídeos recentes.
"Diante dessa humilhação, eu disse a ele que estava tudo bem. Entendi que ele não queria o meu apoio", afirmou.
O senador pediu desculpas à madrasta e a convidou para um encontro com pré-candidatas do PL para cargos regionais e parlamentares, que aconteceu na quarta-feira em Brasília.
Michelle não só não compareceu, como também renunciou ao cargo de presidente do PL Mulher e pode desistir de se candidatar ao Senado, segundo o presidente do Partido Liberal, Valdemar Costa, que tentou, sem sucesso, mediar uma reconciliação.
- Estratégia -
Após muitos meses em empate técnico com Lula nas pesquisas, Flávio caiu vários pontos percentuais no final de maio.
Sua campanha ainda enfrenta as consequências de uma gravação de áudio na qual o senador pede dinheiro a Daniel Vorcaro, banqueiro do Master preso e acusado de um vasto esquema de corrupção, para uma produção hollywoodiana sobre seu pai.
Para Evangelista, a declaração de Michelle é estratégica: ela está "plantando sementes" para uma possível candidatura presidencial em 2030.
E em 2026, "se a candidatura dele [Flávio] ficar ainda mais inviável, ela já sinalizou que estão um pouco separados", afirma a analista.
À medida que os efeitos da crise se desenrolam, os apoiadores de Bolsonaro clamam por união.
"Quem tem família grande sabe. Tudo se ajeita no final", disse Carlos Portinho, líder da bancada do PL no Senado.
"Na hora da campanha todos se abraçam, se ajustam, porque a gente tem um objetivo maior", afirmou.
K.Brown--BTB